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“Parto humanizado” ou “parto animalizado”?

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Estes dias li um texto, linkado no perfil de um colega médico, no facebook, chamado “O parto animalizado”. Fiquei curiosa com o título e corri para ler o que seria este tal “parto animalizado”. Fiquei muito triste com o texto, pois era uma crítica deselegante à assistência humanizada ao nascimento. O escritor do texto não parecia entender sobre medicina baseada em evidências e sobre o que significa uma boa assistência ao parto. Ele entendia que a episiotomia era um procedimento necessário e protetor e não tinha conseguido entender o que uma mulher sente quando vive um parto em liberdade, sem intervenções tecnológicas. O questionamento era mais ou menos assim: “Se a tecnologia trouxe tantos procedimentos e intervenções para o parto, por quê não utilizá-los?”

 

Confesso que, pessoalmente, acho que o termo “parto humanizado” não consegue, por si só explicar tudo o que o BOM PARTO deve ser. É claro que, se somos seres humanos, todo parto já seria “humanizado”.

 

Mas, o que os defensores do “parto humanizado” desejam para as mulheres no momento de receber seus bebês? Por que o tal “parto humanizado” não é “animalizado” e por que as intervenções tecnológicas não são sempre benéficas no momento do nascimento de um ser humano? Quais os benefícios para uma mulher grávida em buscar qualidade de cuidado para o seu parto?

 

Bem, qualidade de cuidado no parto não é sinônimo de intervenções médicas ou tecnológicas. E isto não é uma questão filosófica, é uma questão científica. Quanto menos intervenções no processo fisiológico do nascimento, melhores serão os resultados. A tecnologia médica é, claro, muito bem vinda, quando há doença no parto. Quando há riscos, quando há problemas. Para um parto que está ocorrendo perfeitamente, a tecnologia mais atrapalha do que ajuda. Isto nós, médicos, cientistas e tecnocráticos, temos que admitir: quanto mais nós intervimos desnecessariamente, maior o risco de complicações.

 

O segundo fator importantíssimo é que o PARTO NÃO É UM EVENTO MÉDICO. Definitivamente, parto é um evento familiar. Sexual, social, biológico. Da mulher, do bebê, do casal. É maravilhoso ser médico e poder estar presente neste momento (e é por isto que trabalhamos tão felizes ;->), mas temos que ter cuidado para não roubarmos o lugar deles, dos protagonistas do parto.

 

Em terceiro lugar, o PARTO é um EVENTO ÚNICO na vida da mulher. É um momento marcante, uma janela que se abre poucas vezes na sua alma, no seu corpo, na sua sexualidade. Por isto é que muitas mulheres, quando vivem partos ditos “humanizados” e se sentem seguras e respeitadas neste momento, acabam se tornando radicalmente defensoras da  “causa pelo parto humanizado”. Por isto também é comum que mulheres, quando não são respeitadas durante seus partos, quando se sentem invadidas ou malcuidadas, quando sentem que o momento foi de sofrimento, passam a defender que o parto deveria se evitado, com a realização de cesarianas eletivas, ou abreviado, com procedimentos que diminuam sua duração e a percepção do parto pelo corpo feminino.

 

Passei mais da metade da minha vida pensando nisto: partos. Escolhi ser médica obstetra na infância. Estudei e me preparei por muitos anos e confesso que continuo aprendendo, sempre. Sei que partos podem adoecer, podem apresentar complicações e que a tecnologia obstétrica existe para melhorarmos os resultados para mãe e bebê. Que bom que existimos, que maravilhoso é ter médicos para dar mais segurança aos nascimentos! E que maravilhoso é assistir ao milagre da vida acontecer, tantas e tantas vezes, perfeitamente, sem necessidade da nossa intervenção.

 

Ter um “parto humanizado” é ter um parto SEGURO. É ter um parto CONSCIENTE. Se preparar para o “parto humanizado” é buscar informações. É entender sobre seu próprio corpo, é conectar-se com seu feminino, com seu instinto materno, é cercar-se de pessoas e profissionais que transmitem segurança. É escolher um local confortável para receber seu bebê.
E nós, profissionais que defendemos o “parto humanizado” devemos estar sempre buscando entender melhor os dois lados: o lado da mulher, a fisiologia do nascimento — e o lado da medicina: a tecnologia de apoio. Pois só assim poderemos verdadeiramente apoiar uma família neste momento tão especial: a chegada de um filho.

Quésia Villamil, Médico Ginecologista e Obstetra

CRM 40-477

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