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Ana Carolina Cury – Parto normal no Banquinho de parto

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ana carolinaOs Círculos de Fogo

É estranho como o parto começa antes do parto. Só depois que eu vivi meu parto eu percebi que a chegada do meu filho começou bem antes dele nascer. Na verdade bem antes que eu engravidasse. Enquanto eu me preparava para o parto, me explicaram sobre o “círculo de fogo”, nome dado à sensação que temos quando o bebê está quase para sair do corpo da mãe. Mas eu pude perceber que passei por vários círculos de fogo até chegar a esse momento, e nesse caminho pude contar com a ajudar de pessoas muito especiais.

Meu filho demorou a chegar. Eu o desejei por muito tempo. Quando soube que estava grávida, recebi a notícia com tranquilidade e alívio, como alguém que há muito espera uma carta de uma pessoa muito amada ser trazida pelo correio. E eu sempre desejei uma gravidez tranquila, preparada. Sempre pensei em mim mesma como uma gestante ativa, trabalhando e vivendo uma vida normal e feliz até o ultimo dia antes do dia do parto chegar.

Eu tinha medos, no entanto. Círculos de fogo que eu tive que atravessar. Eu sempre tive 3 medos: de engravidar de gêmeos, de parto prematuro e de ter lacerações no parto. Como eu passei por tratamento para engravidar, havia o risco de gêmeos, que eu tive que enfrentar. Tive um probleminha durante a gravidez (permaneceu um problema pequeno, graças a Deus!!!) que aumentava o risco de prematuridade. Apesar de ser pequeno, me assustou e me deixou preocupada durante um longo tempo. Eu reduzi muito as minhas atividades durante um tempo, minha vida ficou diferente.  Lembro até hoje de sair da consulta da 34ª semana, que foi feita com a Dra Quésia, quase dançando, pedindo ao meu marido para que nós saíssemos para comemorar. Eu comemorava a cada semana. 35ª, 36ª, 37ª, 38ª, 39ª…. e meu bebe super pontual chegou exatamente no dia em que completou 40 semanas morando na minha barriga.

Terca-feira. Eu estava me sentindo diferente já havia uns dias… Entre o sábado e a terça, eu fiquei com uma vontade de ficar quietinha… de não conversar, quase de não me mexer muito. Fui obedecendo meu corpo: não saí muito de casa, descansei bastante e fiquei em casa lendo, assistindo filmes, estudando para o mestrado… mas quieta. Fisicamente quieta. Na terca a noite, fui me deitar tarde, perto das 23h. Eu estava desconfortável, então decidi sair do meu quarto e deitar na cama que fica no quarto do bebe. Assim que me deitei senti uma cólica forte, muito forte mesmo. Achei estranho, mas não deu tempo de pensar muito, porque logo já veio outra, e outra. Voltei ao meu quarto e acordei meu marido, dizendo que estava com cólicas. Fui fazer um xixi   e vi que estava com um pequeno sangramento. Ele abriu um sorriso e disse: “Ele está chegando”. Ficou calmo, me tranquilizou e me deitou e disse para que a gente esperasse, pegou uma folha de papel e uma caneta e o celular, para marcar o tempo das contrações. Em pouco tempo (acho que foi meia hora), estava com contrações regulares de 4 em 4 minutos. Ele mandou mensagem para o Dr Hemerson, tirou foto das anotações e enviou. A resposta foi “parabéns” com vários emojis felizes, depois ele falou para que eu tomasse um banho, um buscopan e falou para o Thiago parar de contar e relaxar. Eu fui pro chuveiro e o Thiago para a farmácia, mas eu já sabia que aquele buscopan não iria nem fazer cosquinha. As contrações já estavam bem intensas, depois de uma hora embaixo do chuveiro eu não queria mais saber de ficar embaixo d’água. Deitei na cama e elas vinham, ondas muito fortes e intensas, eu me agarrava na cabeceira, nos travesseiros, no braço do Thiago para aguentar. Ele ficou ali do meu lado, me acalmando, sendo meu apoio. Massageava as minhas costas, pegava bolsa de agua quente, me incentivava, respirava comigo. Eu estava calma, mas realmente eram contrações muito fortes. Eu achava que o TP ia ser demorado, a intensidade das contrações ia aumentar aos poucos, mas, que nada. Fortes, intensas e muito próximas, meu TP ia evoluindo muito rápido. De repente, eu me dei conta que eu precisava sair da minha casa, rápido. Eu perguntava para o Thiago quando a Tainá ia chegar para me avaliar, e comecei a dizer que não ia dar tempo, não ia dar tempo, que eu precisava ir, que eu sentia que meu corpo estava se abrindo para o bebe nascer. Me agarrava aos travesseiros, colocava os pés na parede à frente da minha cama e subia o corpo, parecia que todo o meu corpo estava se contraindo para ajudar o bebe a nascer.

Tainá chego às 3h30 da manhã, com a cara mais calma do mundo, me ajudou a deitar, me avaliou e disse: “olha, que bom, você já está com 7 centímetros”. E eu disse, então vamos embora!

 Eu queria ir para um hospital com banheira, desejava muito um parto na agua, mas não foi possível, então fomos para um onde não havia esse recurso. Ao chegarmos no hospital, o Dr Hemerson veio me receber no carro, me ajudou a descer e disse “que gravida linda, de vestido, de coque”, me abraçou e me ajudou a ir para o elevador. Tive uma contração forte. Pude ver no seu rosto que ele sabia o que eu estava sentindo. Ele conhecia aquela dor, já a tinha visto inúmeras vezes, sua sensibilidade nesse momento foi fundamental. Taina me trouxe uma cadeira de rodas, e enquanto isso eu e agarrava numa barra do guarda corpo e me agachava, ali mesmo, no meio do estacionamento. Daí em diante eu me agachava toda hora. No elevador, no corredor do hospital, no quarto para onde me levaram. Era incontrolável, eu sentia muita vontade de agachar. Quando chegamos no quarto a Bel já estava lá, o quarto já estava com as luzes baixas, ela colocou uma música do celular do Thiago, depois trocaram para outra música mais calma. Eu estava cansada, com falta de ar, a respiração curta, a cabeça latejando e as contrações não davam trégua. Eu não queria chuveiro, não queria bolsa de água, nada. Só queria respirar.  Minha cabeça latejava, eu não tinha o menor controle da minha respiração, mas ainda assim eu tentava. Me concentrava, me conectava com meu corpo e tentava respirar profundamente. Isso me ajudava a ficar calma, mas eu estava ficando muito cansada. Eu havia me preparado para fazer visualizações, para as respirações, para fica bem zen… mas tudo que eu fazia era gemer e me contorcer.

Tainá e Bel massageavam minhas costas, tentavam várias posições e nada. Eu comecei a pedir ajuda. Eu não queria, mas pedi anestesia, dizia que estava cansada e pedia. E rezava, e pedia ajuda. Nada daquilo era o que eu esperava, mas quem disse que o plano de parto acontece? Acontece o que Deus quer, lá, na hora. Acontece como o bebe quer. O dr Hemerson entrou no quarto e me explicou que minha bolsa ainda não havia estourado e que uma analgesia iria fazer o TP ficar mais lento. Eu não queria analgesia, mas como eu disse para ele e para a Bel, eu precisava descansar. Eu não conseguia cooperar com aquilo, viver o meu TP. Então, assim foi feito, chamaram o anestesista e a analgesia foi feita. A Bel de um lado, Thiago do outro, me segurando para receber a agulhada entre as contrações, Bel me explicou tudo enquanto ia acontecendo, me deixando confiante e traquila. Depois da medicação, por meia hora eu dormi, o Thiago dormiu e eu desconfio que a Bel, o Hemerson e a Tainá deram uma dormidinha tbm. Depois disso, o Hemerson entrou no quarto e me falou para começar a andar, me movimentar, e conversou comigo para me explicar que talvez ele tivesse que romper a bolsa, apesar da dilatação continuar evoluindo bem, a bolsa não havia rompido. Aí tiveram a ideia de que eu me sentasse no banquinho de parto… então a bolsa se rompeu.

Saímos desse quarto e fomos para outro quarto, onde era a suíte de parto. Quando entrei lá, as luzes baixas, as músicas que a Bel colocou pra tocar, senti profundamente no meu ser que meu filho estava chegando. Eu sentia cada contração, cada dor.. e eu GOSTAVA  porque sentia que meu filho estava vindo!!! Me deu uma felicidade tão grande, eu me lembro de um momento em que estava apoiada na barra e vi O Hemerson num canto, sentado numa poltrona, a Bel e a Tainá de um lado , a Bel sentada na cama, o Thiago em outra poltrona e tocava a música “Todo azul do mar”… essa música foi colocada pela Bel, nem eu nem Thiago lembramos de pegar playlist nenhuma, mas essa muisca era a música que eu escutava quando comecei a namorar meu marido, o pai do meu filho que estava chegando. Era uma emoção muito doce e muito profunda que tomava conta de mim naquele momento. Eu me ajoelhei e me apoiei nos joelhos do Thiago e olhei nos seus olhos e ele estava calmo… ele olhava pra mim em uma espera confiante e calma.

Nós tivemos que esperar a dilatação evoluir no tempo dela. Deu tempo de o Thiago sair, lanchar, voltar. Deu tempo de conversar, de rir, de respirar. Deu tempo de brindar com biscoito e chocolate, de tomar muita agua de coco. A Tainá, incansavelmente paciente, media os batimentos do bebe toda hora. E todas as vezes eu perguntava se estava tudo bem, e ela respondia que sim, tudo bem. Meu neném, forte e intenso, trabalhando comigo. Estávamos bem. A Bel, delicada e tranquila, foi me guiando, sugerindo posições, bola, banquinho, barra, banco. Eu não sei quanto tempo se passou ali, mas sabia que já era de manhã quando as dores intensas voltaram e com ela a falta de ar e a cabeça latejando muito. Tentei aguentar, mas chamei o Hemmerson e a Bel e disse que precisava de uma segunda dose. Eu estava na dúvida, não queria mais atrasar a chegada do meu filho, sentia uma urgência de vê-lo de pegar nos braços, de segurar no colo, de mostra-lo para seu pai. Mas tinha medo de não aguentar. A Bel me disse para não controlar nada e me entregar, então pedi mais uma dose de analgesia, que foi feita, mas mesmo assim eu continuava sentindo todo o meu corpo. Só que eu conseguia respirar participar do meu parto e isso para mim era mais importante que tudo.

Eu fiz varia coisas no meu parto que disse que não ia fazer. Pedir a analgesia foi uma delas. Não querer ir pro chuveiro, querer tocar a cabeça do meu bebe enquanto ele descia, olhar no espelho a evolução do TP, agachar, sentar no banquinho, foram várias outras. Não sai nada como imaginamos.

A minha entrega foi acontecendo, com todas essas novidades e descobertas e a ansiedade de ver o meu bebe logo. Eu dizia “meu bebe tá chegando, tá chegando” o tempo todo. Em um momento o Hermmerson veio me avaliar e ajudou um “restinho” da bolsa a acabar de se romper e disse “Olha, tava 9,5 agora , ó, tá 10. Vai nascer entre 9H00 e 11h30”. Eu nem sabia que a hora já era essa, que já era de manhã.

As contrações começaram a ficar muito, muito próximas, mesmo, rapidamente Taina e Bel me colocaram no banquinho, o Thiago sentado atrás de mim, me segurando e me ajudando. Elas amarraram um pano e eu me segurei nele para fazer mais forca, mais forca, cada vez mais forca. (ah, eu também achava que não ia usar o pano…). E todos me diziam para respirar fundo. Eu me levantava, agachava, sentava de novo. E respirava. A cada respiração profunda a Bel colocava uma essência perto do meu nariz e eu sentia aquele cheiro bom. As contrações vinham e eu estava ficando cansada, era muito forte e eu sentia o bebe chegando. Eu me lembro de olhar para a Tainá e perguntar se já estava acabando, porque eu não aguentava mais, nessa hora eu já estava muito, muito cansada, quase chorando. O Hemmerson na minha frente, as meninas ao meu lado e Thiago atrás de mim, de repente um quase silencio, só a música baixinha e aquela penumbra, um momento que deve ter durado pouco mas para mim pareciam muitas e muitas horas. Aquele quase silencio, eu me ouvia respirar e quase chorar. Eu sentia meu corpo pronto para meu filho nascer e cansado ao mesmo tempo. Então o Hemmerson me chamou. Encostou a testa na minha, me disse para não fazer forca e deixar meu corpo agir. Ele me disse “Você está no círculo de fogo. Não foge dele, entra nele. ” Essas palavras tiveram um efeito profundo em mim. Eu criei novas forças e coragem para seguir adiante, eu vi em minha mente esse círculo a minha frente, me vi andando ao seu encontro.   Em poucos minutos meu bebe estava nos meus bracos. Ele veio, o Hemmerson o segurou e me entregou, dizendo “parece que já pegou bebe antes!!!!” Eu o segurei, seu corpinho leve e branquinho, branquinho, e vi seus olhinhos abertos, muito vivos e assustados olhando para mim e para seu pai. E juntos nos abracemos naquele abraço de três seres que há muito tempo já formavam uma família. Um abraço amoroso, acalmando o susto de quem acaba de chegar nesse mundo para começar uma nova história. Ficamos ali sentados juntos um tempo, chorando e deixando aquele amor nos envolver. Depois disso, me ajudaram a me deitar, pois eu precisei levar pontos. A laceração, da qual eu tinha tanto medo, aconteceu. E, enquanto o Hemmerson e a Tainá faziam o seu trabalho com paciência e delicadeza, a Bel em ajudou a amamentar meu bebezinho pela primeira vez. Ela ficou ali me ajudando a segurá-lo, durante uma hora ele mamou. Um peito, depois o outro. Todos riam, conversavam em um clima de alegria e paz. Chegou a hora de ir para o quarto. Entre muitos beijos e abraços, agradecimentos e bênçãos, fomos para o quarto, começar a nossa história de família, uma nova história cheia de amor, com muitos círculos de fogo para atravessarmos unidos.

Ana Carolina Cury – Parto normal no Banquinho de parto,

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