Desmame: Quem aí tem medo põe o dedo aqui!

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Desmame: Quem aí tem medo põe o dedo aqui!

 

Eu já tinha lido e ouvido muito sobre o desmame.

Foram tantas histórias… tanto sofrimento…

Muitas histórias foram de pessoas bem próximas, de amigas, de médicas, de pacientes queridas.

Mulheres que tiveram lindas experiências de parto e aleitamento, mulheres fortes que venceram tantas dificuldades na vida, e não tinham medo de abrir o coração para contar que sentimentos tiveram quando a questão desmame chegou às suas mentes.

 

Então eu ficava pensando: Céus, que coisa é esta de desmame que é tão complicado? Como assim tanto sofrimento? Peitos enfaixados, mães chorosas, bebês insones, maridos tensos… Será que era a hora mesmo?

 

Mas eu não achava resposta. Não tinha o que dizer a elas, não sabia o que recomendar. Eu não sabia se já era a hora do desmame! Tudo o que eu podia dizer era um discurso pré-formatado: ” A OMS recomenda aleitamento materno até 2 anos de idade, mas a decisão de até quando amamentar é só sua, e deve ser tomada levando-se em consideração muitos fatores, desde emocionais, até familiares e sexuais”.

 

Símples assim: você senta, pensa, conversa com o marido, decide, chama o bebê, explica para ele, enche o copo de leite ninho e entrega nas mãozinhas dele: “Bebe aí que é gostoso!”

 

É assim?

 

Sempre soube que não era. Claro que não era…

 

E por isto tive medo. Tinha muito medo de quando chegasse a minha vez.

 

Então pensei em não planejar. “Vamos ver o que vai rolar” — eu pensava.

 

E então foi assim que aconteceu: bebê saiu de dentro da barriga, veio para cima da barriga, meteu a boca no peito, se refestelou, arrotou e dormiu. Continuou fazendo isto regularmente sem muitos lero-leros nas próximas horas e dias… Então senti que tinha sido extremamente abençoada. “Obrigada Deus, com este bebê esperto não terei conflitos e dificuldades para ter que decidir sobre sua alimentação”.

 

Mas eis que chegam os seis meses e aí vêm as frutas, os legumes, os carboidratos…

 

E as perguntas. “Hum… Seu bebê já come de tudo, né…. ainda mama no peito?” — “Ele acorda à noite?” — “Quantas vezes ele mama no peito por dia?” — “Você vai amamentar até quando?” — “Você quer ter outro filho? Sabia que amamentando é mais difícil engravidar?”

 

E você começa se questionar. Afinal, amamentar é uma delícia, você está supercurtindo aquela relação já tão bem estabelecida, mas tem tudo isto acima. As perguntas incomodam, porque são coisas reais. Você realmente fica cansada, se ele acorda à noite ou fica doente, ele quer mamar, tem dias que ele quer mamar mais vezes que a rotina, você não sabe até quando, você quer ter outro filho, você quer retomar outras coisas de sua vida pessoal… mas… quando???

 

Percebi que o mais difícil não era desmamar. Era decidir. Quem vai me ajudar a decidir? Neste mundo em que aleitamento exclusivo até 6 meses é exceção e amamentar após 1 ano mais exceção ainda?

 

Foi então que, após 1 ano da primeira mamada e do primeiro arroto, incomodada com a decisão que não chegava, mas já sentindo que o desmame estava próximo, resolvi usar uma técnica que sempre dava certo comigo: ler.

 

Ler, ler, ler: livros de pediatras, de psicólogos, artigos científicos. Ler blogs, ler relatos, ler comunidades de mães.

 

Li todo tipo de história: de mulheres que sofreram, que não sofreram, das que amamentaram até 3 anos,  que amamentaram até 1 mês, de mulheres  que não amamentaram.

 

Vi que o desmame podia ser sofrido, sim. Assim como tantas outras coisas na vida das mulheres: A primeira menstruação, o início da vida sexual, a gravidez, o parto, o início do aleitamento.

 

Mas aí fique pensando: por que as mulheres sofrem assim? Por que deixam acontecer isto com elas? Por que não se informam, não leem, não pedem ajuda?

 

Acho que é porque estes são momentos em que a mulher precisa passar por uma profunda introspecção e análise de si mesma e que, por mais que ela leia, ouça e conheça histórias, a decisão e o caminho — quando e como — para o desmame, só podem sair dela mesma.

 

Enfrentar o desmame é enfrentar você mesma. É assumir: “Eu quero desmamar… e pronto!”. É se sentir plena, e passar uma página da sua vida, é guardar as lembranças bem guardadas e saber que você poderá sempre voltar e recordar, que aquele período mágico da sua vida aconteceu de verdade, e que você viveu ele intensamente, mas ele passou.

 

Terminar a história do aleitamento materno é abrir espaço para novas histórias. Novas experiências com seu bebê, com seu marido, com você mesma, com sua sexualidade, com a vida à sua volta.

 

Quando isto acontece?

Não sei. Não há resposta. Tem bebês que estão prontos para nascer com 38 semanas, outros com 39, outros só com 41…

Então como pode haver uma data própria para desmamar mães e bebês?

 

O melhor caminho, então é auto-conhecimento e informação. Não aceitar as falas preconceituosas, os mitos, os medos. Olhar para dentro de si própria e escolher viver a sua história, do seu filho, de sua família, sem planejamentos, respeitando as peculiaridades que são próprias de vocês.

 

O desmame vai chegar, sim, assim como chega o trabalho de parto, assim como chega o leite, assim como chegou a paixão pelo pai do seu bebê, um dia, magicamente. Na hora em que você menos esperar. Prepare-se fortalecendo suas relações de amor, fortalecendo seu coração…

 

 …. e também comprando uns 3 tipos de leite diferentes para seu bebê poder escolher né?

 

Boa sorte!

Quésia Villamil, Médico Ginecologista e Obstetra

CRM 40-477

Para mais informações entre em contato pelo telefone (31) 3262-3538