Lilian (3)

Lilian Nagem

Cheguei ao IN antes mesmo de ficar grávida. Felizmente, tive contato com pessoas que viveram experiências de parto positivas, que compartilharam suas experiências comigo e me ajudaram muito nesse sentido. Além disso, o uso da reflexão me fazia querer algo o mais natural possível.

Para mim, as coisas na natureza não acontecem por acaso. Os processos são tão complexos e perfeitos que me dão a certeza absoluta de que há uma Inteligência por detrás de tudo o que existe. Não só isso, mas a sensação que tenho ao me conectar com a natureza, com meus semelhantes e comigo mesma, me demonstra que não é só Inteligência, é Inteligência e Amor. Isso é o que eu chamo de Deus.

Por isso, pensava: não é possível que Deus tenha criado um processo tão perfeito de geração de um novo ser e tenha esquecido de pensar em como esse ser vai sair da barriga. Não faz sentido pensar que é um processo errado e que precisa sempre de intervenção. Que bom que o homem com sua inteligência criou recursos que podem ser úteis em situações nas quais são necessários, mas usá-los de forma indiscriminada não fazia sentido para mim. Ainda mais ao descobrir que eles tinham consequências no trabalho de parto, no organismo da mãe e do bebe.

Também pensava sobre a dor do parto e não tinha medo dela. Pensava: não é possível Deus ter feito a maior parte das mulheres do mundo terem que passar por uma dor que elas não aguentam.

Mesmo assim, devo admitir que tinha meus medos. Medo de ir muito tarde para maternidade e sentindo muita dor, medo da laceração, medo de tirarem minha filha de perto de mim na primeira hora. Contar com o apoio e estrutura do IN foi essencial para mim. Me dava a tranquilidade que eu precisava. Eu sabia que tinha recursos e que haviam pessoas sensatas que iriam me ajudar a saber quando era necessário utilizá-los. Sobre a laceração, pensava: se eu tiver certeza que vou lacerar, isso vai mudar minha decisão sobre o parto? Não, então era um medo inútil.

Acho que hoje em dia estamos tão distantes de tudo o que é natural e tão caprichosos que nos assustam situações nas quais não temos controle. Tenho buscado confiar em mim mesma e na inteligência da Criação e isso foi essencial para viver uma experiencia de parto positiva.

 

Bom, dito isso, vamos ao relato.

 

Na quarta, dia 02/05, tive consulta com o Dr. Hemerson. Eu estava com 39+4. Ele comentou sobre a possibilidade de fazer um descolamento de membranas. Disse que ainda não era necessário, mas que algumas mulheres ficam tão ansiosas que pedem para fazer. Decidi não fazer por enquanto, confiando na fisiologia do parto. Ele também falou que não havia necessidade de fazer exame de toque, só se eu quisesse saber como estava, por curiosidade. De novo, decidi confiar e proteger a minha mente que certamente ia ficar confabulando independente do número de dilatação que ele me falasse.

Saí do consultório um pouco preocupada, com medo da Julia não nascer e eu ter que induzir. Não havia motivo para preocupação, mas a tendência de tentar controlar tudo me deixava ansiosa frente ao que não podia dominar. Porém, naquele mesmo dia, me pus a refletir sobre mim mesma, sobre tudo o que estava vivendo e compreendi que o que estava passando era o que EU precisava passar, que fazia sentido na lógica da Criação. Decidi então resignar, não preocupar, deixar acontecer o que fosse acontecer.

Pode ser coincidência, mas penso que essa mudança de estado foi essencial para o inicio do trabalho de parto. Finalmente estava serena para a chegada da Julia, e no dia seguinte ela demonstrou estar serena para vir também.

Na quinta, na hora do almoço, comecei a sentir minhas primeiras contrações com dor.  Elas eram não ritmadas e eu sabia que podia demorar muito para a Julia nascer. Mesmo assim, fiquei feliz com aquela novidade.

Tinha planos de fazer algumas coisas fora de casa a tarde mas à medida que o tempo passava via que seria difícil. Também ia aproveitar para fazer a minha unha. Mas tampouco consegui. Os intervalos das contrações diminuíam e eu comecei a usar bolsa de água quente para melhorar.  Comecei a medir o intervalo das contrações.  Não eram ritmadas. Mandei mensagem para a Bel e continuei deitada vendo Netflix e com a bolsa de água quente para aliviar.

Às  16h, comecei a pensar que talvez fosse o caso de alugar um tens naquele dia mesmo.  Entrei em contato com o IN e eles tinham acabado de emprestar para outra paciente que estava com contração há dois dias.

Meu marido, Renato, sugeriu que resolvesse isso com urgência e eu aceitei a sugestão.

Ao longo da busca do tens, as contrações seguiam e a bolsa de água quente também.

Consegui um tens com a Rosana por volta das 18h. Meu marido foi buscar na casa de uma paciente e a Rosana iria trazer um eletrodo emprestado até que eu conseguisse comprar no dia seguinte.

Meu marido chegou em casa as 19h30 com o tens e junto dele havia um conjunto de 8 eletrodos novinhos que deviam ser da paciente e que ela mandou por engano. Rosana chegou logo depois e me ensinou a por.

Na hora de me ensinar, me sugeriu usar os eletrodos que ela trouxe  porque eram maiores. Mas na hora de pôr, surpresa! Eles estavam estragados.  Não fosse essa paciente que deixou os eletrodos, eu teria que esperar o dia seguinte para usar o tens, ou seja, não teria podido usar esse alívio tão bom para a dor.

Logo que a Rosana saiu, conforme sua orientação, usei o tens por meia hora.

Entre 21h e 23h, as coisas ficaram um pouco confusas na minha memória. Acho que foi por volta desse horário que o trabalho de parto engrenou. Lembro que tomei um banho e tentei descansar. As contrações estavam mais fortes e frequentes mas não achava que estavam ritmadas porque, sendo uma pessoa de exatas e perfeccionista, estava procurando um ritmo perfeito, tipo: tempo de contração e intervalos exatos.

Às 23h, mandei mensagem para a Adrinez e para o Dr. Hemerson falando do aumento da contração e da saída do meu tampão mucoso.  O Dr. Hemerson me sugeriu tomar um Buscopan duo, banho quente, roupa quente e descanso.

Tomei o Buscopan, o banho e coloquei um roupão, mas já não conseguia descansar. Ao invés disso, tens nas costas e bola de pilates durante as contrações.

Entre 23h e 01h segui sentindo dor enquanto o Renato terminava um trabalho que ele precisava finalizar antes da Julia nascer. Não conseguia mais medir as contrações, apenas ficava na bola, com o tens e as aturava.

A partir de 1h, ele desligou o computador e veio me ajudar e monitorar. Sendo também de exatas, buscava contrações com intervalos e durações iguais, por isso, não achávamos que precisava entrar em contato ainda com a equipe.

Às duas da manhã, pensamos em entrar em contato com a Adrinez para falar do meu estado geral. Porém, logo vi que estava sangrando e decidimos ligar para o Dr. Hemerson. Ele pediu dados do plano, hospital de preferência e falou para chamar a Adrinez para verificar. A Adrinez atendia outro caso, então veio a Karine que chegou aqui em casa por volta das 3h. Eu fiquei assustada com a historia do sangue e só descansei quando a Karine falou que era normal. Ela ouviu os batimentos da Julia e fez meu exame de toque. Ao terminar, falou calmamente : vou ligar pra o dr. Hemerson, vocês querem saber quanto está de dilatação? Ao que frente a nossa resposta afirmativa ouvimos: 9cm.

Então, fiquei assustada e animada. Dr. Hemerson logo falou o hospital que éramos para ir e apenas esperamos ele estar mais próximo para sairmos de casa. O que ocorreu às 03h45.

Eu estava tranquila e feliz. Estava vivendo parte dos meus medos: ir tarde pra maternidade, mas era a realidade e eu precisava resignar.

Chegando no hospital as 4h, o Dr. Hemerson nos recebeu na porta, me deu um abraço e me deu os parabéns. Foi resolver assuntos de entrada com o Renato enquanto eu subi para a sala de parto com a Karine. Chegando lá, o cenário estava montado. As luzes apagadas, a banheira enchendo, um ambiente acolhedor que a Bel havia preparado. Quanta delicadeza e amor havia naqueles profissionais. Fui para a bola de pilates enquanto a banheira enchia. Devo ter ficado por lá uns trinta minutos.  A Bel no meu lado, me ajudando a respirar profundamente e a ficar tranquila com a mente serena. Perguntou qual óleo essencial mais me agradava e preciso dizer que embora eu não seja muito de óleos e cheiros, senti-lo durante o trabalho de parto realmente me reconfortou.

Nessa hora, o silêncio no quarto era grande e as pessoas resolviam as coisas falando bem baixo para não me atrapalhar.  A unica voz suave que aparecia era a Bel pedindo para eu respirar devagar. Ela também respirava alto profundamente durante as contrações, o que me ajudava demais.

Pedi que colocasse a minha playlist, o que deixou o ambiente e aquele momento mais agradável.

Nesse momento, a Bel pediu para eu lembrar das frases que tinha feito anteriormente e um pensamento veio em minha mente. Na verdade, não um pensamento, uma certeza: eu vou conseguir. Me emocionei ao pensar naquilo. Estava pronta, era ali, minha filha ia nascer.

Devo ter entrado na banheira por volta de 4h30. A água quentinha era boa e a possibilidade de mudar de posição com facilidade realmente ajudava.  Mas as contrações continuavam vindo e, com elas, a dor. Era bem melhor do que com o tens, era suportável  e eu só ansiava começar a sentir vontade de empurrar.

Na minha percepção, isso demorou. Com 9cm de dilatação, achei que seria rápido o processo e para mim aquela 1h foi demorada. Não porque a dor era forte, mas pela ansiedade de acontecer para saber que ia dar certo.

Quando comecei a sentir vontade de empurrar, achei que as dores das contrações iriam diminuir e que o próximo desafio seria o círculo de fogo. Mas não foi o que aconteceu  comigo. As contrações de puxo eram diferentes, um novo tipo de dor. No início, totalmente involuntárias, eu não conseguia sequer mover algum músculo durante a contração. As contrações dominavam meu corpo com grande força. A melhor forma que tenho para explicar é como se fosse aquele movimento de vômito que surge involuntariamente mesmo quando não tem mais nada para vomitar. É um nó na barriga sendo apertado com muita força.

De novo, achei que seria rápido a chegada do círculo de fogo, mas a próxima meia hora pareceu uma eternidade. Cheguei a comentar que estava demorando e as meninas supuseram que era porque a bolsa não tinha estourado. De fato, acho que ela estourou durante o expulsivo, mas não me lembro ao certo quando.

O que me lembro foi que por volta das 5h30 começamos a ouvir uns passarinhos. Primeiro, um sozinho, depois vários. Enquanto o dia raiava, eles anunciavam a chegada da minha filhinha.

Teve uma hora que as contrações do expulsivo mudaram um pouco e foram se assemelhando a uma contração na qual eu empurrava voluntariamente. A sensação que tive é que o final dependia de mim.

Até então estava em uma posição mais favorável para a proteção do períneo, mas ela limitava a minha força principalmente devido à profundidade da banheira. Naquele momento, eu não estava mais nem aí se eu sofresse laceração, só queria minha filha comigo. Por isso, aceitei a sugestão das meninas e mudei para a posição de cócoras, apoiando depois no meu marido que sentou atrás de mim.

Aliás, ele foi essencial durante todo o processo. Com a orientação da Bel, ficou tranquilo, fez massagem e inclusive me ajudou no expulsivo favorecendo a minha posição de forma totalmente intuitiva. Como é bom ter um parto com o apoio do marido.

O tão falado círculo de fogo foi chegando e não me incomodou. Estava tão feliz que ela estava chegando, que faltava pouco. Lembrei que precisava manter a serenidade nessa hora e aguardei as contrações sem desespero. Entre as últimas contrações, pude ver a cabecinha da minha filha prestes a sair e fiquei maravilhada com a beleza daquela criação.

Antes, achava que não ia querer ver o momento que ela coroasse, que não ia querer tocar, mas poder ver e sentir aquilo tudo foi maravilhoso. A imagem me marcou porque o corpo que estava ali era bem diferente do meu. Me impressionou a rapidez com a qual ele muda durante o trabalho de parto para receber esse novo ser. É uma coisa linda, inteligente, perfeita.

Nessa hora, a contração passou e pude ouvir a música que estava tocando da minha playlist. Não era das minhas músicas preferidas para esse momento. Então, disse: Bel, muda a música por favor.  Vai a Bel pegar o meu celular e pedir pro meu marido mudar a musica. O Dr. Hemerson achou a maior graça de eu querer mudar a música no meio do trabalho de parto. Mas a música do nascimento é algo que sempre teve um significado na minha família.

Música mudada, Ed Sherman tocando Thinking out loud, vem a contração de novo.

Mais uma ou duas contrações e minha filha nasce. Vem para o meu peito, chorando e choramingando porque a água ficou um pouquinho fria para ela. Um chamego, muitas mãos  segurando aquela coisinha. Saímos da banheira para a maca e ficamos tentando esquenta-la e acalma-la. A placenta nasceu facilmente, sem dor ou dificuldade.

Veio então meu segundo medo: Julia precisava ser afastada de mim pois estava chorosa e com frio.  Tudo foi explicado com carinho e o papai foi convidado a ficar com ela durante todo o processo. Fiquei mais tranquila pois sabia que meu marido era um leão e que a defenderia todo o tempo.

A enfermeira veio verificar se eu havia lacerado, o último dos meus medos, e efetivamente ocorreu una pequena laceração. Tampouco me preocupou ou incomodou. Já estava resignada, não havia mais nada a fazer.

Tive que aguardar três horas para ter minha filha nos braços de novo. Meu marido estava com ela e eu estava cercada pelas mulheres da minha vida que já haviam chegado. Pude contar tudo, refletir, rimos muito. Mesmo querendo vê-la o mais rápido possível, consegui viver um momento feliz.

Ao reencontrar a minha filha, veio dentro de mim a certeza da grandiosidade que é  a maternidade e o mal que é hoje para a nossa sociedade esse medo imenso que se tem do parto e da maternidade.  São coisas divinas e maravilhosas e me senti grata a mim mesma por ter tido a valentia de me propor vivê-las.

 

Enquanto eu vivia o trabalho de parto, não senti muitas sensações sublimes. Tive alguns momentos de forca interna e emoção, mas a maior parte do tempo era foco em suportar a dor, vontade de que nascesse logo e de que progredisse tudo bem. Acho que o momento é tao sublime e intimo que nem mesmo nós podemos vivê-lo com consciência. Passado o parto, fui me apaixonando cada vez mais por ele, uma vontade de revivê-lo na memoria o tempo todo, repassar todos os detalhes em busca do segredo divino que se encontra atras da discreta fumaça que protege esse instante. Não sei se isso ocorre em todos os partos, mas quero viver todos os meus partos assim. E, sinceramente, qualquer dor compensa essa sensação mágica.

 

Sobre a equipe do Instituto, acho que não tinha consciência, no momento em que os escolhi, que estava escolhendo as pessoas que iriam participar de um dos momentos mais íntimos e sublimes da minha vida. Felizmente, eles sabem disso e se colocam com todo o respeito e todo o amor possível frente a esse momento. Se tivesse que dizer algo sobre o trabalho da equipe, diria isso: muito amor. Além  disso, muita sintonia ao ter uma equipe no qual cada um tem um papel específico e fundamental. Serei eternamente grata a esses profissionais que realmente tem um novo jeito de cuidar!

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