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A maratona e o parto

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Uma reflexão sobre o (des)valor da dor do parto na sociedade contemporânea

Hemmerson Magioni e Quésia Tamara, obstetras do Instituto Nascer

No último domingo uma amiga publicou, na internet, um foto onde ela estava sentada no chão com o corpo todo molhado de suor, o cabelo completamente desarrumado e uma expressão de extremo sofrimento.

Na legenda da foto, minha amiga falava da alegria que sentiu por ter conseguido terminar uma maratona: ela tinha conseguido, pela primeira vez, dar a volta na Lagoa da Pampulha. Descreveu que a prova foi muito difícil e que em vários momentos pensou em abandoná-la, mas reuniu toda sua força e coragem para que, indo além dos seus limites, cumprisse o desafio de finalizar a maratona.

Ela não foi vencedora da maratona, mas conseguiu chegar ao fim dela.

Ao observar aquela foto, qualquer pessoa perceberia que ela teve um enorme prazer em tudo o que tinha feito. Após uma grande descarga de endorfina, minha amiga teve a felicidade de chegar ao fim da prova por mérito próprio.

Abaixo das fotos, podiam-se ler os comentários dos amigos. Todos a cumprimentavam e a exaltavam por saber que ela havia homework uk finalizado a maratona, mesmo após tanta dor e sofrimento.

Então eu me perguntei: Será que, se esta mesma amiga tivesse publicado uma foto depois de um intenso trabalho de partoseguido de um parto normal, e na legenda tivesse relatado que lutou para vencer, que sentiu dor, que sofreu, mas que estava muito feliz com o que havia conquistado… quais seriam os comentários dos amigos?

Será que os comentários, abaixo da foto da minha amiga, suada, com ares de cansaço e cabelo desarrumado após um partonormal, seriam de exaltação pela conquista?

Ou será que os comentários seriam: “Credo, que coisa antiga! Por que ela não fez uma cesariana? Hoje em dia não precisa sofrer mais assim… A cesariana é muito segura… Para quê ficar suada no dia do nascimento do próprio filho? Para quê sentir dorese ter um filho assim como antigamente?”

Voltei-me para a foto e pensei, de novo, na minha amiga correndo em volta da lagoa da Pampulha. Suada, cansada, sentindo dores…

Então, novamente, me perguntei: Por que ela não pegou um taxi? Ou melhor: por que minha sábia amiga não alugou uma bicicleta e fez um tranquilo passeio pela orla da Lagoa da Pampulha em homenagem ao distinto arquiteto Oscar Niemeyer?”

 

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