Janete Queiroz

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“Oi pessoal!

Como vocês já devem estar sabendo, Luísa nasceu em 22/04/2014 com 50 cm, 3,035 kg, linda e dorminhoca. Escolheu a hora de chegar e contrariou as estatísticas nacionais: 41 semanas de gestação, parto normal em mãe com cesárea prévia (uns e outros adicionam idade avançada da mãe, mas isso é intriga da oposição!). Ambas passamos bem, Fabricio e Daniel, felizes e corujas.
Um abraço a todos!”

 

Enviei essa mensagem aos meus colegas de trabalho comunicando o nascimento da minha filha.Essas palavras resumem os obstáculos extras para a minha opção por parto normal, além do fato de viver em um país onde a impontualidade aos compromissos é normal, mas se exige dia e hora para o nascimento de grande parte dos bebês.

 

Até a semana anterior, apesar das perguntas incessantes sobre a data agendada, eu estava muito segura de que entraria em trabalho de parto naturalmente como na gestação anterior. Na última consulta de pré-natal, com 40 semanas, me recusei a fazer o descolamento da bolsa sugerido pela Dra. Quésia por não considerar necessário intervir para acelerar o processo, mas os dias seguintes foram mais difíceis do que eu imaginava. O feriado prolongado entre 18 e 21 de abril aumentou a ansiedade da família e eu, me sentindo pressionada e sem apoio, chorei o domingo inteiro respondendo “infelizmente não” ao me perguntarem se eu estava sentindo alguma coisa, mas, depois de assistir uma comédia boba e rir um pouco, me acalmei.

 

Um dia antes do parto (segunda-feira, último dia do feriado), com 41 semanas completas, Fabrício e eu conversamos e, temendo riscos que a espera poderia acarretar, concordamos em marcar a cesárea após a consulta do dia seguinte. Durante a gravidez, tive algumas paranóias com a possibilidade de algum problema que exigisse cesariana, mas nem nos piores pesadelos imaginaria uma cirurgia eletiva por não ter entrado em trabalho de parto. Mesmo assim, fui dormir tranquila, procurando não pensar muito no assunto.

 

Na mesma noite, acordei com a impressão de ter sentido uma contração, mas eu tive medo de estar enganada e fiquei quieta. Senti sair um pouco de líquido, mas continuei sem coragem de me levantar temendo criar expectativas falsas. Saí da cama ao sentir mais uma contração (dessa vez eu estava bem acordada e tive certeza), o chão ficou molhado com o líquido amniótico, a bolsa havia rompido. Fiquei um tempo no banheiro ainda sem acreditar que estava entrando em trabalho de parto pensando no que fazer primeiro.

Voltei para o quarto, acordei o Fabrício e falei que a bolsa havia rompido. Ele perguntou se eu não ligaria para a médica, mas eu achei que ainda era cedo para isso e eu não queria incomodá-la. Depois de alguns minutos e mais algumas contrações, resolvi mandar um SMS para a Dra. Quésia, certamente ela veria minha mensagem em algum momento da madrugada, já que tinha um filhinho de dois meses e provavelmente acordaria de madrugada para amamentar. Minutos depois ela me ligou, pediu que colocasse no viva voz pra conversar com o Fabrício também. Nos orientou sobre a contagem das contrações e o melhor momento de ir pra maternidade. Fabrício começou a monitorar as contrações por um aplicativo de celular. Eu pedi que ele parasse e esperasse algumas horas, por achar que o processo demoraria, mas ele preferiu continuar contando. Ao contrário das minhas previsões, em menos de meia hora, as contrações tinham intervalos inferiores a dois minutos e pedi ao Fabrício pra ligar para a Dra. Quésia porque eu já não conseguia falar. Ela disse que entraria em contato com o hospital e com o Dr. Hemmerson que me aguardaria lá. Tomei um banho, me despedi da minha mãe, que estava em minha casa para cuidar do Daniel, e fui com o Fabrício para o hospital com contrações pouco espaçadas e bastante doloridas, bem mais intensas que da primeira gravidez, na minha percepção. Chegamos à maternidade antes do médico, a suíte estava reservada.

 

Dr. Hemmerson chegou quando eu já estava instalada, nem sei como consegui me deitar para o exame com tanta dor. Ele falou todo animado “três centímetros de dilatação, bolsa rota, é trabalho de parto”.

Apesar de toda a gentileza dele, minha sensação foi de desespero, temi ter ido cedo para a maternidade. Foi como voltar três anos no tempo: meio dia, três centímetros de dilatação, a bolsa rompeu no consultório da obstetra que me encaminhou para a maternidade imediatamente; algum momento entre uma e três da tarde, a médica plantonista do hospital fez um exame de toque, zombou da minha afirmação de bolsa rota dizendo que se tratava de incontinência urinária e me mandou de volta para casa falando que meu parto ainda poderia demorar uma semana; onze e meia da noite, outro plantonista da maternidade me encaminhou para a internação com contrações pouco espaçadas e os mesmos três centímetros de dilatação. O pior é que a dor parecia bem mais intensa dessa vez, pensei que não aguentaria e pediria analgesia imediatamente, apesar da minha intenção de parto natural.

 

Cheguei a falar isso para o Dr. Hemmerson, embora a dor me impedisse de manter um diálogo civilizado. Fui para o chuveiro e chorei desesperada porque não conseguia acertar a temperatura da água, mas o Fabrício me ajudou com os registros e a água nas costas me deu um alívio. As dores eram intensas, mas eu vi que conseguiria suportar mais tempo.

 

Saí do chuveiro, fiquei algum tempo ajoelhada, depois usei a bola para me apoiar enquanto o Fabrício fazia massagem nas minhas costas – fiquei com as costas vermelhas de tanto pedir que ele massageasse mais forte.

 

Não me lembro detalhadamente do que fiz nesse período, nem quis música ambiente para não cronometrar o tempo, mas por volta de nove horas da manhã estava exausta e senti que não suportava mais. No último exame, foi verificado que eu estava com seis centímetros de dilatação e eu perguntei ao Dr. Hemmerson sobre as conseqüências de uma analgesia naquele momento, ele falou que isso variava de pessoa pra pessoa, mas acho que independente da resposta eu pediria pois não aguentava mais aquela dor. Novamente eu pensava no outro parto, com seis centímetros de dilatação o médico me encaminhou para a cesárea porque meu bebê “cabeçudo” ainda tinha apresentação alta. Fiquei com medo de parar a progressão do parto, mas eu já tinha atingido o meu limite. Dr. Hemmerson perguntou se eu queria esperar pela Dra. Quésia que estava a caminho mas eu neguei, já estava rendida à dor.

 

O anestesiologista demorou, eu já estava muito nervosa e respondi grosseiramente a todas as perguntas que a enfermeira fazia preenchendo um formulário para o procedimento (com perguntas repetidas mil vezes desde a admissão no hospital); Dr. Hemmerson quebrou um pouco o clima pesado comentando entre risos que naquele hospital ninguém havia presenciado um parto com mais de 38 semanas, após a expressão de choque da enfermeira ao saber da minha idade gestacional. Dra. Quésia chegou no momento em que a peridural seria aplicada.

 

Eu desabei em lágrimas abraçando o Fabrício e a Dra. Quésia, tão nervosa que não conseguia parar de chorar nem após o efeito da anestesia. Tomei um pouco de água e finalmente me acalmei para ser examinada. Tive alguns efeitos colaterais (frio e tremores) e não tinha disposição para me movimentar. Os batimentos cardíacos da Luísa caíram, acho que não entendi direito na hora, dias depois, verifiquei pelo partograma que a situação se prolongou mais que eu imaginava. Não foi possível atingir a minha meta de parto natural e, depois de passar quase um ano lendo sobre o universo do parto sem intervenções e os malefícios das drogas anestésicas e da ocitocina sintética, logicamente senti culpa e medo da possibilidade de uma cesárea por esse motivo.

 

Antes do fim do efeito da analgesia, Dra. Quésia me orientou sobre a dor forte que eu sentiria, deixando claro para eu me sentir à vontade para gritar, xingar, falar palavrão, tudo que eu quisesse fazer. Ela já havia sugerido que eu me alimentasse, mas eu me recusei e, ao me levantar, senti as pernas bambas de fome e muito medo de não ter forças (não almoçar foi o meu único arrependimento em todo o processo). Voltei a me movimentar, o efeito dos medicamentos passou e a dor voltou com intensidade. Alternava entre o banheiro e o quarto chorando de dor e sem achar nenhuma posição confortável.

 

Em algum momento, Dr. Hemmerson me conduziu ao banquinho de parto, eu fazia força e gritava muito. Nunca imaginei que poderia gritar tanto! Se a parte do cérebro responsável pelo raciocínio é uma deficiência durante o trabalho de parto humano, naquele momento, eu havia eliminado totalmente esse defeitinho. Gritei à Dra. Quésia que tirasse a Luísa (até hoje tento fazer um modelo matemático pra entender como eu queria que isso fosse feito e não consegui); quando vi pelo espelho a cabeça da Luísa coroando, pensei que não caberia (mesmo com todas as leituras sobre fisiologia do parto e sabendo que o Daniel nasceu por uma passagem que nem existia); quando a Dra. Quésia perguntou se eu gostaria de tocar a cabecinha, eu neguei porque tinha certeza de que, se fizesse isso, eu a empurraria novamente para dentro (sim, eu achava que tinha todo esse poder!).

 

Ouvi alguém me mandando calar, não sei se foi a pediatra ou a enfermeira, mas a Dra. Quésia falou no meu ouvido para eu fazer o que quisesse, se tivesse vontade de gritar que gritasse, poucas palavras que me comoveram e renovaram minhas forças. Fechei os olhos e de repente a Luísa estava em meus braços, tão pequena e tão linda, num momento tão diferente do que eu imaginava. O instante após o parto não se enquadrou em fantasias de  empoderamento, como gritar “Yes, I can” ou invocar “a honra de grayskull”, foi um momento de pura contemplação. Olhar para aquela boquinha linda, segurar aquele corpinho pequeno foi indescritível. Eu nem percebi as dificuldades respiratórias da Luísa, pensei que ela fosse apenas um bebê tranquilo que não chorou ao nascer, e a agarrei quando a pediatra queria levá-la para os procedimentos necessários.

 

No final, algumas coisas me desapontaram como o corte precoce do cordão e o atendimento neonatal que não foi dos melhores possíveis. Não tive um parto modelo, não escrevi um relato inspirador, como tantos que li quando almejava meu VBAC, e talvez a residente simpática que pediu para presenciar o primeiro parto humanizado da carreira esteja traumatizada com meu escândalo e nunca mais pretenda fazê-lo, mas me senti satisfeita e com a autoestima elevada como em poucas vezes na vida. Com a experiência maravilhosa que começou nas consultas pré- natal e se prolongou até o pós-parto, a humanização do nascimento adquiriu um novo sentido em minha vida. Fiz escolhas, algumas boas, outras nem tanto, experimentei a humanidade enquanto racionalidade, civilização. Pari sem cortes e com dor como qualquer animal mamífero e, embora isso pareça tão excêntrico num mundo onde sequer identificamos todos os ingredientes da comida, o que é ser humano senão isso? A experiência do parto foi muito diferente do que eu imaginava, porém transformadora, me fez entender o significado de humano como imagem de Deus.

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