lu ferreira

Lu Ferreira – Parto natural na Água

Esta publicação foi postada no dia por .

Uma coisa que percebi ao longo da gravidez foi a ideia equivocada que a sociedade em geral tem do parto. Na maior parte das vezes o momento do nascimento é associado a algo negativo: dor, sofrimento, medo. Confesso que tinha um pouco de medo no início da gravidez, afinal era algo desconhecido. Mas à medida em que as semanas foram passando e eu me informando, o medo passou. Sabia o que esperar do parto e me sentia preparada para aquele momento. O que eu sentia era expectativa e curiosidade, estava animada para conhecer minha filha e esperava que desse tudo certo. Esse é meu relato de parto, onde conto como cheguei até a noite mais incrível da minha vida. Espero que ele inspire outras grávidas a se informarem também e que o resultado seja mágico como foi o meu.

No início da minha gravidez, se me perguntavam sobre parto, eu falava: quero que seja normal. Eu não sabia que não entendia exatamente o que estava falando. Pra mim existiam dois tipos de parto: normal e cesárea. Mas ao longo dessas 39 semanas de gestação fui descobrindo todo um novo mundo, que culminou no meu parto no dia 25/11. Natural, sem anestesia, na água. Nunca pensei que eu faria isso! Na verdade repeti várias vezes nas consultas de pré natal que jamais entraria na banheira. “Não sou dessas da banheira gente, quero anestesia.”

Como já contei aqui mudei de obstetra quando estava com 24 semanas de gravidez. Estava sendo acompanhada por uma profissional que eu diria ser padrão – mas eu não queria um parto padrão. Escuto relatos de mulheres que tiveram partos normais assustadores – cheios de interferência, sem privacidade, com procedimentos desnecessários e desinteresse da equipe naquilo que está acontecendo – é uma nova vida, gente! Um parto deveria ser um momento maravilhoso, memorável – é o nascimento de um filho afinal de contas – e meu medo era acabar com uma história triste, como tantas que ouvi.

Acabei indo parar num instituto que tem como conceito o parto humanizado. Fiquei receosa de marcar a consulta – parto humanizado pra mim significava parto na banheira e sem anestesia (HAHA), e eu nunca fui contra anestesia e nunca considerei um parto em casa, por exemplo. Queria a segurança de um hospital, queria o conforto da anestesia, enfim, queria um parto normal. Serei eternamente grata às pessoas que cruzaram meu caminho desde que pisei naquele Instituto. À medida em que as consultas iam passando minha cabeça ia mudando, finalmente entendi o conceito real de parto humanizado: aquele que respeita a mãe e o bebê. Se você quer anestesia, terá anestesia. Quer ficar deitada, fica. Quer ficar sentada, andar? Tudo bem, não há imposições, apenas o acompanhamento e claro, a interferência quando necessária para a saúde da mãe e do bebê.
Tive um clique no dia em que fui me consultar com a anestesista, Dra Eliane, para a avaliação antes do parto. Ela me perguntou: “Lu, qual a maior dor que você já sentiu na sua vida?”. Eu não soube responder na hora, não me lembrava. Foi aí que entendi porque ela me dizia que dor era uma coisa subjetiva. Afinal de contas, uma coisa é uma dor que vem de um sofrimento, uma doença, um machucado… Outra bem diferente é a dor que tem um propósito feliz – trazer um filho ao mundo, por exemplo. Nessa hora eu lembrei da maior dor que já havia sentido: foi quando fiz uma tatuagem na costela, homenagem para minha avó. Lembro que ardia, queimava, doeu MUITO. Mas era a rosa da minha avó, quem ligava se estava doendo? Nesse dia comecei a pensar na hipótese de um parto sem anestesia. Demorei a contar isso pro Leo e meu plano era nem contar pra doula e pra obstetra (heheh!), mas Leo abriu a boca numa consulta e aí todo mundo já sabia.

Depois de aprender com nossa doula, Lena, (doula é uma especialista em partos. Não é médica, não é enfermeira, é uma pessoa carinhosa e que sabe te instruir durante o momento) as fases de parto, entender a importância do ambiente para a evolução dele e como eu poderia reagir a cada fase, comecei a imaginar meu parto. E foi melhor do que esperava.

Acordei às 4 da manhã de segunda (com 39 semanas e um dia de gestação) com uma cólica forte nas costas. Não consegui dormir mais, levantei e fui trabalhar. Lá pelas dez da manhã descobri que o tampão havia saído. Isso poderia significar que o parto aconteceria daí a alguns dias, mas não existe um prazo certo. Tentei não ficar ansiosa com aquilo, mandei mensagem pra obstetra, Dra Quésia, contando, peguei uma bolsa de água quente pra aliviar a dor (que continuou o dia todo, igualzinha às cólicas de TPM que tenho) e fui dormir mais um pouco. No dia seguinte acordei de novo com dor, mas dessa vez era diferente: só na frente, e ritmada. Era o início das contrações! Também sabia que isso poderia durar dias, então tentei não me animar muito… Tivemos uma consulta às onze da manhã e aí a coisa ficou mais real: estava com dilatação de quase dois centímetros. A instrução era tentar relaxar, aproveitar o dia.

Foi o dia em que mais trabalhei nas últimas semanas, hahah! Ouvir aquilo foi como colocar um alarme, tinha muita coisa pra entregar e se não fizesse naquele dia achava que não faria tão cedo… Fora que era dia 24 e desde o final de outubro que falo pra família: “Ela vai nascer dia 25 de novembro, vocês vão ver!”. Estava certa. Parei de trabalhar às 21:21, hora que o último email saiu da minha caixa. Escrevi entre contrações, respirando fundo e fazendo “ahhhh”, tipo aquela respiração do pilates, sabe? Aliviava bastante. Aí quis tomar um banho, estava cansada, com dor, e sempre ouvi falar que o banho ajudava com as dores das contrações. Foi ali, no chuveiro, sentindo a água quente bater nas costas, que caiu a ficha: “Ela vai nascer! Ela vai nascer daqui a pouco!”. Comecei a chorar, a rir, parecia uma louca, era um estado de felicidade que eu nunca tinha sentido. Fiquei no chuveiro quase uma hora, até que saí e as contrações foram aumentando. Aí foi a hora do Tens.

Tens é um aparelhinho que eu havia descoberto duas semanas antes, na consulta. “Lu, já te falei do Tens? Um aparelhinho que ajuda a aliviar as dores das contrações – ele gera estímulos elétricos que minimizam a dor”. Aluguei um naquele dia mesmo. Minha intenção era ficar em casa a maior parte do trabalho de parto, o ambiente em que me sinto mais segura, confortável, e por isso mesmo o que proporcionaria um trabalho de parto mais rápido. Minha meta era chegar ao hospital com no mínimo seis centímetros de dilatação. À meia noite e pouco a gente chegou, eu estava com sete pra oito centímetros. Eu sabia que essa era a fase mais dolorida do parto (aprendi com a Dra. Eliane), e não havia tomado a tal anestesia até esse momento… Será que eu iria conseguir ficar sem?? Nessa hora a bolsa rompeu e aí a coisa começou a andar mais rápido.

A sala de parto era à meia luz. Lena plugou um aromatizador cheiroso na tomada, ligou a música que eu havia escolhido. O ar condicionado estava desligado e o ambiente era quentinho e acolhedor. Estávamos eu, Leo, Dra. Quésia e Lena. Olhei pra elas enchendo a banheira e falei: “gente, nem vou entrar na banheira”. Fiquei um tempinho na maca. Quando a dor parecia insuportável, Lena me sugeriu mudar de posição. Mudei, melhorou. Quando essa nova posição começou a ficar insuportável, não aguentei: “Acho que quero anestesia”. Me explicaram então o que aconteceria: “Vamos chamar o anestesista. Ele vai ter que acender a luz. Primeiro vamos fazer um aceso venoso e daí a mais ou menos meia hora ela vai começar a fazer efeito”. Preferi tentar ir pra banheira.

Assim que entrei já senti uma super diferença. Que gostoso ficar ali na água quentinha, aliviava mesmo! Fiquei em uma posição por um tempo, na fase que eu achei a mais difícil do parto: eu sentia muita necessidade de fazer força, mas era difícil, era uma força que eu nem sabia que existia. Lena me sugeriu outra posição. Quase não consegui me virar, estava exausta, mas aos pouco consegui. Fiquei apoiada nas pernas do Leo, que estava sentado na beirada da banheira. Aí começou a parte meio mágica: a dor passou. Não sentia mais dor, só muita vontade de fazer força, e a cada vez que fazia força a sensação era boa, ficava calma… Um silêncio absoluto na sala nesse momento. Não saberia dizer quanto tempo isso durou, me falaram que foi cerca de uma hora e pouco. Eu sentia a vontade de fazer força, me apoiava na barra da banheira e no braço do Leo, fazia, a vontade passava, me sentia calma.

No final de um impulso, senti ela saindo. Alguém me virou e a Dra. Quésia me entregou minha filha embaixo d’água. Quando a tirei, nos meus braços, ela estava de olhos abertos, piscando, olhando a sala em volta. Ela não chorou. Ao invés disso ficou com os olhões abertos, olhando pra tudo aquilo, quietinha, fofa, bochechuda. Coloquei ela automaticamente no meu colo, senti as costas gordinhas. Nessa hora o cordão parava de pulsar, Leo cortou e se juntou a nós duas na banheira. Ficamos os três ali, olhando um pro outro, em êxtase. Eu também não chorei. Fiquei conversando com ela. Dei as boas vindas, contei o nome dela. Aí quis que Leo a carregasse um pouquinho também. Nunca vou esquecer da sensação da água quentinha abraçando a gente e daqueles olhinhos bem abertos, olhando pra nós pela primeira vez.

Eu pensei que o pós parto seria um momento super desgastante – sempre ouvi isso. Ao invés disso estava completamente extasiada. Saí da banheira, fui pra maca, Bia veio pro meu colo e ali ficou nas próximas quatro horas. Mamou muito, mais de uma hora, e nessa hora Lena mais uma vez estava do meu lado me ajudando. Os olhinhos continuavam abertos e atentos, ela também não dormiu. Não sentia dor nem cansaço depois do parto. Só conseguia olhar pra ela, conversar, foi o momento mais feliz da minha vida. Não acreditava que havia feito aquilo, entrar naquela banheira foi a melhor decisão. Meu parto foi totalmente natural – Bia nasceu quando estava pronta, no ritmo dela, sem interferências.

Serei eternamente grata às três mulheres que me acompanharam durante esse tempo e fizeram com que eu tenha a lembrança do parto como um momento doce, forte e feliz: Dra Eliane Soares, a anestesista que me convenceu a não usar anestesia (hehe!), Dra Quésia Villamil, nossa obstetra que nos instruiu ao longo de tantas semanas, e Lena Borgo, nossa doula, que me confortou e instruiu para que tudo corresse da forma mais confortável possível. Eu comecei essa gravidez falando que não era radical, não iria virar militante… Estava errada. Todo mundo merece passar por essa experiência. Virei mais uma defensora voraz do parto humanizado, o único que deveria existir.

Para mais informações entre em contato pelo telefone (31) 3262-3538