POLYANA

Polyana Jeha – Parto natural na água

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POLYANA

O que a vida quer da gente é coragem (Guimarães Rosa). Ao que eu acrescento: amor, esforço e fé também. A vida recompensa tanto tudo isso!

A história do parto da Letícia, minha segunda filhinha, começou muito antes dela.

No histórico da minha família, minha vó materna perdeu a primeira filha num parto normal bem difícil feito “em casa por parteira” e fez várias promessas para os inúmeros partos normais seguintes, que seguiram sendo difíceis, mesmo “com médicos e em hospital”. Já minha mãe, ainda muito jovem (22 anos), me teve num parto normal exaustivo no norte de Minas de 34 anos atrás (mais de 30 horas seguidas de contrações, cerca de 24 delas no hospital, sem comer nem beber nada, com muito pouca informação sobre os procedimentos utilizados).

Por esses motivos e pensando em me cercar de toda a segurança possível, há cerca de 3 anos atrás, durante a gestação da minha primeira filhinha, a Mariana, rechacei, de pronto e sem qualquer pesquisa ou reflexão sérias, a possibilidade de um “parto natural” e de ser acompanhada por um obstetra que fizesse esse tipo de partos. Via nos partos naturais partos cercados de riscos desnecessários para os dias de hoje, riscos que eu não deveria nem queria correr. Hoje reconheço com toda a humildade e sinceridade: o que eu, uma mulher madura, “estudada” e pertencente a uma classe social que se acha informada sobre praticamente todos os assuntos, fiz àquela época foi rechaçar de pronto a possibilidade de um parto natural partindo de uma total ignorância sobre o assunto, do comodismo de não buscar informação mais atualizada sobre a matéria, além de, confesso, um certo medo do desconhecido (como será meu parto? provavelmente difícil, como os de minha avó e minha mãe, então melhor afastar desde já qualquer risco… não saberei lidar com a culpa de ter contribuído com algo que possa dar errado…). Por outro lado, também tive coragem ao ter optado, se fosse possível e sem riscos desnecessários para o bebê e para mim, mesmo diante do histórico de partos normais difíceis da minha avó e da minha mãe e de todas as comodidades de agendar uma “cesariana”, por ter um parto normal.

Nos últimos dias da minha primeira gestação, à medida que eu senti se aproximar o momento do parto e me deparei novamente com o medo do desconhecido, que acredito ser bem maior quando se opta por um parto normal, se acentuou um processo pelo qual eu vinha passando desde que decidi tentar me tornar mãe: o de aceitação, com coragem, e o de entrega, com amor, esforço e fé, ao desconhecido e ao incontrolável. No momento de conceber, aceitei e encarei a falta de conhecimento e controle sobre boa parte das coisas que importam na vida (naquela altura: sou uma mulher fértil ou não? vou conseguir engravidar ou não? vou receber um filho com saúde ou não? o que vai ser da minha vida se eu me tornar mãe? o que vai ser da vida do meu filho ou filha?…). Nos últimos dias da minha primeira gestação, também aceitei o lado desconhecido e fora de controle do meu futuro parto e decidi encará-lo com amor, esforço e fé. Por amor, eu pela primeira vez me dei conta de que, para além do corpo, seria capaz de dar e daria, até mesmo literalmente se preciso fosse, a minha vida por alguém. Decidi também que, com esforço, eu suportaria a dor e faria a força que fosse para o bom nascimento da minha filha. Com toda fé que eu tinha, eu rezei. Entreguei a Deus a minha vida, meu parto e a vida da minha filhinha, e pedi a Maria, mãe de Jesus, que sentiu as dores do parto e a dor muito maior de perder um filho, e à minha outra Maria, a falecida avó materna, aquela que perdeu a primeira filhinha, que cuidassem de nós. Com isso, a angústia se foi e eu passei a esperar com serenidade aquele parto, segura de que seria o melhor que eu e minha filha poderíamos ter. As contrações do trabalho de parto enfim chegaram e, diante delas, consegui manter essa serenidade dias antes conquistada. Quando as contrações se intensificaram, minha mãe, minha outra Maria (Ana Maria), sabendo que eu adoro banhos de banheira, preparou um para mim com todo o carinho na banheira da casa dela para que eu pudesse esperar melhor o momento de ir para o hospital. E assim aconteceu. Quinze minutos depois de eu pisar na maternidade, tendo sentido muito menos dores do que eu esperava, já teve início a fase expulsiva do parto e, quinze minutos depois, com pouco esforço, Mariana nasceu, bem na hora em que a Ave Maria da playlist do celular do meu marido tocava no modo aleatório. Nasceu cheia de saúde e abraçada em amor por mim e pelo pai dela. Um parto normal maravilhoso, que eu jamais ousaria imaginar para mim e para a Mariana.

Esse parto mudou tudo. Mudou a história de partos da minha família. Mudou a história do parto da minha segunda filhinha, a Letícia.

O fato de eu ter suportado bem as dores, o efeito analgésico da banheira (e do carinho da minha mãe), os incômodos normais do pós-parto causados pela episiotomia que foi feita em mim, a opinião de outros profissionais que me conheceram e me acompanharam durante a gestação sobre a provável desnecessidade da anestesia raquidiana e da episiotomia que eu recebi já no final da fase expulsiva do parto, tudo isso me fez repensar o que eu queria para o meu segundo parto. Com esforço, corri atrás do máximo de informações que eu pude sobre o recentemente falado “parto humanizado”, descobri que essa linha não só leva mais a sério as necessidades e a autonomia de cada mulher como também está alinhado com as evidências científicas mais atuais em matéria de parto, inclusive recomendações da OMS e práticas de vários países desenvolvidos. Nesse percurso, ouvi relatos de belos e seguros partos naturais (sim, aqueles mesmos que antes eu rechaçava de pronto), possibilidade à qual me abri de coração. Também recebi a indicação de obstetras responsáveis e de bom senso que atuavam na linha do parto humanizado e que, pelo histórico da assistência que prestaram a mulheres que eu conhecia, eu tive certeza que me auxiliariam a ter o parto melhor e mais seguro para a minha bebê e para mim, sem “forçação de barra” para intervenções desnecessárias ou para partos de qualquer tipo, seja cesariana ou natural. Um desses profissionais foi o Dr. Hemmerson. A outra foi a Dra. Ludmila, a minha “Lud”, amiga desde os tempos de colégio. Depois de me consultar com eles, não tive dúvidas de que eles é quem me assistiriam. E assim foi.

Eles e toda a equipe do Instituto Nascer (Thalita, Marina e Larissa, com a simpatia e a prontidão de sempre na recepção; Carol, na nutrição de gestante, e Renata Cangussu, na fisioterapia obstétrica, me auxiliando com doçura e segurança na preparação do corpo e da pelve, tão essenciais para o parto; Morgana, com as melhores massagens relaxantes que eu já recebi na vida, tirando a tensão de cada ponto do corpo para que ele pudesse aguentar melhor as futuras dores do parto; Tainá, enfermeira obstétrica, e Daphne, minha doula) me deram toda a informação, a acolhida, o suporte, a segurança, a disponibilidade e o carinho para uma gravidez saudável e para um parto ainda mais maravilhoso.

Iniciadas as contrações, Lud, com prontidão, total disponibilidade e carinho, acompanhou por zap e telefone todas as minhas contagens e a saída do tampão. Enviou a Tainá para a casa dos meus pais, onde eu lá estava novamente, para medir a dilatação do meu colo do útero. Sim, era mesmo o início da fase ativa do trabalho de parto (12/04/2017, 22:30: 4-5cm de dilatação). E desta vez o banho de banheira seria na suíte de parto normal da maternidade para evitar qualquer susto (depois da rapidez do parto da Mariana, o maior medo agora era o de um parto domiciliar… rsrsrs). Lud me aconselhou a ir logo para a maternidade. Meu pai dirigia o carro, Bê, meu marido, na frente junto dele, e Tainá atrás comigo. Cheguei na Maternidade da Unimed por volta das 23:30, Lud e Daphne me esperando com um abraço na recepção. À meia noite, eu já estava na suíte de parto normal. Na prateleira da cabeceira da cama, eu pus minha imagem de Nossa Senhora do Bom Parto. Lembrei-me de minha mãe e minha vó, coração. Enquanto Bê colocava para rodar a minha playlist e organizava no pequeno armário e mesinha algumas coisas trazidas na mala da maternidade, entrei na banheira, como eu tanto queria, preparada com todo o carinho desta vez pela Daphne. Lud, Daphne e Tainá, depois de terem me orientado em tudo e preparado tudo, com toda a sensibilidade e do jeito que eu queria, me deixaram sozinha e em intimidade dentro da suíte, só com o Bê e, ainda dentro de mim, a Letícia. Elas vinham vez em quando checar se estava tudo bem comigo e com Letícia, nos examinar, me tranquilizar e me encorajar com as palavras certas, me acarinhar com um sorriso, Daphne depois de um tempo também auxiliando o Bê nas massagens, Dr. Hemmerson dando todo o apoio e Paula Beltrão fotografando com sua presença discreta.

Relaxei, fechei os olhos e orei em sussurro. Relaxei ainda mais. Bê sentou-se no alto da banheira, com os pés e joelhos na água, ao meu lado e em silêncio, como eu havia pedido. Mais uma vez um companheirão. Estávamos prontos. As contrações começaram a se intensificar. Desta vez não era somente o meu corpo nas dores, como no primeiro parto. Era o meu e o dele, aparando e massageando o meu, quando eu me curvava em dor sobre os joelhos dele. Desta vez eu não só sobrevivia às contrações, eu as observava, eu as sentia, eu as queria recordar, como se este parto com todas as suas sensações fosse o último. Durante as contrações, quando a dor vinha, eu deixava serena que ela tomasse meu corpo. Apoiava-me sobre os joelhos do Bê, o resto do corpo na banheira, olhos fechados, em silêncio, deixando do lado de dentro do corpo, a cada contração, a dor me tomar por inteiro, forte porém generosa, abrindo passagem para o mais novo amor da minha vida, Letícia, afagada e incentivada do lado de fora do corpo pelo calor da água e pelo toque do meu outro amor. Não lutei, não me enrijeci contra a dor. Talvez por isso ela mais uma vez foi amiga, menos intensa e mais suportável do que eu imaginava. Abracei a cada vez essa dor de amor, essa dor de vida, recebendo-a com a maior serenidade e entrega possível, com todo o meu corpo, porque ela era para mim Letícia. Ficamos ali assim por cerca de 2 horas. Ao final desse tempo, com os puxos, Bê agora dentro da banheira comigo, foi chegando Letícia. A passagem dela pelo canal foi ritmada, eu me esforçava o máximo que podia e ela também. Como Daphne havia me falado que provavelmente ocorreria, Letícia ia descendo e subindo e descendo novamente com sua cabecinha pelo meu canal, o seu túnel da vida, como que abrindo e fazendo seu próprio caminho, a seu tempo e modo. E desta vez eu senti tudo tudinho dessa descida linda, inclusive o círculo de fogo, finalzinho de sensações que a anestesia havia me roubado no primeiro parto. E fui forte. E foi lindo. Sublime. Inesquecível. Ver o Bê aparando a Letícia saindo de dentro de mim ainda em água e colocando-a nos meus braços também foi mágico, união íntima de amor, em corpo e alma, éramos os 3 um só. Amor é isso. E o Pai, o Filho e a Mãezinha do Bom Parto assistindo e ajudando tudo ali do alto, do alto da prateleira do quarto onde estava a minha imagem e do céu maravilhoso daquela noite, banhado em luz de estrelas e uma enorme lua cheia.

O que a vida quer da gente e recompensa tão bem: coragem, amor, esforço e fé.

Para mais informações entre em contato pelo telefone (31) 3262-3538