Uma visão crítica do “Parto Humanizado”

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Dr. Hemmerson Henrique Magioni – 18/05/09

Uma importante questão a ser esclarecida é que o termo “Parto humanizado” não pode ser entendido como um “tipo de parto”, onde alguns detalhes externos o definem como tal, como o uso da água ou a posição, a intensidade da luz, a presença do acompanhante ou qualquer outra variável. A Humanização do parto é um processo e não um produto que nos é entregue pronto.

Atualmente um novo termo tem sido utilizado: “Parto Humanizado“. Como não houve uma formal definição do termo, ele é usado em todo tipo de circunstância. Para o Ministério da Saúde, parto humanizado significa o direito que toda gestante tem de passar por pelo menos 6 consultas de pré-natal e ter sua vaga garantida em um hospital na hora do parto. Para um grupo de médicos, significa permitir que o bebê fique sobre a barriga da mãe por alguns minutos após o parto, antes de ser levado para o berçário. Em alguns hospitais públicos significa salas de partos individuais, a presença de um acompanhante, alojamento conjunto, incentivo à amamentação, entre outros benefícios. No entanto, o que deve ser discutido é “o atendimento centrado na mulher“. Isso deveria ser o correto significado de “parto humanizado”. Se a mulher vai escolher dar à luz de cócoras ou na água, quanto tempo ela vai querer ficar com o bebê no colo após seu nascimento, quem vai estar em sua companhia, se ela vai querer se alimentar e beber líquidos, todas essas decisões deverão ser tomadas por ela, protagonista de seu próprio parto e dona de seu corpo. São as decisões informadas e baseadas em evidências científicas.

Acredito que estamos a caminho de tornar cada vez mais humano este processo, isto é, tornar cada vez mais consciente a importância de um processo que para a humanidade sempre foi instintivo e natural e que, por algumas décadas, tentamos interferir mecanicamente, ao hospitalizarmos o nascimento e ao querermos enquadrar e mecanizar em um formato único as mulheres e o evento parto.

O termo “humanização” carrega em si interpretações diversas. A qualidade de “humano” em nossa cultura quase sempre se refere à idéia arraigada na moral cristã de ser bom, dócil, empático, amável e de ajudar o próximo. Nesse contexto, retirar a mulher de seu “sofrimento” e “acelerar” o parto através de medicações e de manobras técnicas ou cirúrgicas é uma tarefa nobre da medicina obstétrica e assim vem sendo cumprida.

Mas há um porém neste tipo de intervenção. Um olhar mais atento na prática atual da assistência ao parto revela uma enorme contradição entre as intervenções técnicas ou cirúrgicas e as suas conseqüências no processo fisiológico do parto e na saúde física e emocional da mãe e do bebê. Um olhar ainda mais atento nos processos culturais, emocionais, psíquicos e espirituais envolvidos no parto revela novos e norteadores horizontes, tal qual a importância, para mãe e filho, de vivenciar integralmente a experiência do parto natural.

A qualidade de humano que se quer aqui revelar envolve os processos inerentes ao ser humano, os processos pertinentes ao ciclo vital e a gama de sentimentos e transformações que a acompanham. O processo de nascimento, as passagens para a vida adolescente e adulta, a vivência da gravidez, do parto, da maternidade, da dor, da morte e da separação são experiências que inevitavelmente acompanham a existência humana e por isso devem ser consideradas e respeitadas no desenrolar de um evento natural e completo como é o parto. Muitas e muitas mulheres ao relatarem seus partos via cesariana mostram a frustração de não terem parido naturalmente com as próprias forças os seus filhos. Querem e precisam vivenciar o nascimento de seus filhos de forma ativa, participativa, inteira. Viver os processos naturais e humanos por inteiro muitas vezes envolve dor, incômodo, conflito, medo. Mas são estes mesmo os “portais” para a transição, para o crescimento, para o desenvolvimento e amadurecimento humano.

A humanização proposta pela “humanização do parto” entende a gestação e o parto como eventos fisiológicos perfeitos (onde apenas 15 a 20% das gestantes apresentam adoecimento neste período necessitando cuidados especiais), cabendo a obstetrícia apenas acompanhar o processo e não interferir buscando “aperfeiçoá-lo”.

Humanizar é acreditar na fisiologia da gestação e do parto.
Humanizar é respeitar esta fisiologia e apenas acompanhá-la.
Humanizar é perceber, refletir e respeitar os diversos aspectos culturais, individuais, psíquicos e emocionais da mulher e de sua família.
Humanizar é devolver o protagonismo do parto à mulher (ela participa ativamente das decisões podendo expressar seus desejos e escolhas).
É garantir-lhe o direito de conhecimento e escolha.

“A forma como nascemos tem conseqüência por toda a vida.”

Para pensar no parto há quatro passos a serem lembrados ou tomados.

1º – A ocitocina é o hormônio do parto, que desencadeia a contração uterina. Este é o principal hormônio do amor e da relação sexual (“Ocitocina é o hormônio do amor”). Segundo Michel Odent, obstetra francês, este hormônio, porém, depende de fatores ambientais para ser liberado.
Trata-se de um hormônio tímido, não aceita se mostrar entre estranhos e observadores. Esta informação é algo que se esqueceu em relação ao parto.

A ocitocina é importante nas relações sexuais, sendo que o par precisa liberar o hormônio para acontecer a relação. O sexo requer, normalmente, isolamento e intimidade, havendo apenas a presença dos envolvidos. Mesmo em relações grupais, as pessoas buscam um espaço em que se sintam seguras.

Todas as mamíferas têm a estratégia de não serem observadas no parto. Elas se recuam para um local em que fiquem isoladas e seguras.

Em certa fase da humanidade, as mais remotas, as mulheres se isolavam para dar à luz. Já em tempos remotos, mas já de comunidades, elas iam às “cabanas” de partos, um lugar isolado para o parto, onde todas davam à luz. Sempre houve a separação do grupo para parir, mas não muito longe de suas mães ou de outra mulher experiente que pudesse protegê-la de animais que pudessem estar por ali. Em geral, não temos vergonha de nossas mães, então o hormônio (a ocitocina) se apresenta. Essas mães/mulheres são as precursoras das parteiras.

Veio a socialização do parto. A parteira passou a existir e se tornou uma agente, uma guia da parturiente, e não uma observadora silenciosa. Muitas vezes elas agem de forma invasora, ensinando a mulher o que fazer. As mulheres passaram a dar à luz em ambientes domésticos.

Ensinar a parir é falta de compreensão de como funciona a ocitocina. A mulher precisa apenas não se sentir observada e pressionada.

Em toda a história houve a exclusão dos homens da cena de parto. Já no século XX houve a “masculinização” do cenário de parto, e em especial, na década de 70 entra o pai para a cena.

Instantes pós-parto a mulher libera o seu mais alto nível de ocitocina da vida. É o maior pico de hormônio do amor da vida da mulher. Nenhum orgasmo pode liberar quantidades tão altas! Essa grande liberação hormonal ajuda no não sangramento uterino aumentado no pós parto.

A mãe precisa do bebê pele a pele, cheirá-lo e ter forte contato para liberar este pico vital de ocitocina.

Essas informações servem àqueles que dão assistência ao parto para se descobrir quais as reais necessidades da mulher ao parir.

2º – O hormônio adrenalina impede a liberação da ocitocina em mamíferas. Adrenalina é o hormônio da urgência, que prepara o corpo para agir.

Para deixar a ocitocina fazer o seu trabalho de parto é necessário músculos relaxados e não energia, carboidratos e glicose. Quando uma mamífera se retira para parir e se sente segura, há hormônio do amor fazendo seu trabalho; se ela percebe um perigo, um predador, imediatamente há liberação de adrenalina e seu trabalho de parto é eficientemente interrompido para que seu corpo seja capaz de fugir. Só então quando se sentir segura novamente, voltará ao trabalho de parto. A fisiologia seria ineficiente se ela tivesse que correr com o filhote descendo pela vagina, por isso pára tudo quando há sinal de perigo.

3º – Comparadas a outras mamíferas, as humanas têm partos difíceis e longos. Isso se dá pelo neo córtex desenvolvido que temos. O cérebro do intelecto, a área cerebral responsável pela racionalidade, é uma deficiência durante o trabalho de parto. As inibições à ocitocina vêm desta área cerebral, tanto para o sexo quanto para o parto.

Para o bom parto, o neo córtex tem que parar de funcionar, relaxar. É por isso que muitas mulheres esquecem o que está acontecendo em sua volta durante o parto e são pouco polidas, ficam de quatro e se comportam como se estivessem em outro planeta. Tudo isso significa que o córtex diminuiu sua atividade.
Por isso não se deve estimular o córtex, o campo racional da mulher durante o parto.
A linguagem é um dos mais fortes estímulos. O silêncio é o maior aliado do parto. Luz, imagens visuais em geral e a observação devem ser evitadas. Por isso a mulher deve dar a luz em local tranqüilo e com privacidade

Devemos redescobrir a importância da privacidade e do silêncio.

4º – Eliminar tudo que é “humano”: crenças e rituais que interferiram com o processo de parto. É preciso sair dos efeitos desses rituais.

Um exemplo: a separação de mãe e filho em vários momentos da história da humanidade. Em tempos de não civilização, as mulheres pariam e o bebê era levado ao chefe/líder da tribo para uma preparação ou avaliação da criança para depois se integrar à comunidade. Em tempos atuais, o bebê nasce e vai para as mãos do pediatra (que faz o mesmo que seus primórdios) e avalia se o bebê pode viver na comunidade, e o prepara para tal. Em um momento da descoberta do parto natural, houve a conduta de passar o bebê ao pai assim que nasce para que eles iniciem um vínculo afetivo mais precocemente.
Em todas as situações, em diferentes lugares e tempos, é conduta HUMANA separar mãe de bebê.

Essa conduta deve ser dispensada, assim como tudo que é “humano”.

O parto é uma história entre a mãe e o bebê, devemos redescobrir o momento do nascimento, a mãe e o bebê devem ficar juntos. Devemos estimular pouco o neo córtex . Eliminar aquilo que é humano. Devemos satisfazer as necessidades dos mamíferos de privacidade e segurança.

Hoje podemos explicar que a mulher foi programada para liberar um “coquetel” de hormônios do amor. Hoje muitas mulheres não podem fazer isso, essa liberação de hormônios.

O que vai acontecer daqui a cinco gerações?

Precisamos redescobrir o que a mulher precisa.
Será que nós não devemos “humanizar” o parto, e sim “mamiferizar” o parto?

 

Dr. Hemmerson Henrique Magioni

Ginecologista e Obstetra do Hospital da Mulher e Maternidade Santa Fé


Fontes:

  • Michel Odent, Livro “A Cientificação do Amor”. Editora. 1996
  • Eleonora de Morais, Texto, “Parto Humanizado”. 2006
  • Livro, “Effective care in pregnancy and childbirth”. 2000
  • Leboyer, Fréderick. “Nascer sorrindo”. Editora Brasiliense. 1974

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