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Janaina Lima Foureaux

Meu amado filho, hoje você está completando um ano de vida. E eu ainda me sinto
um pouco culpada por nunca ter escrito pra você como foi especial o dia da sua chegada,
pois tenho certeza que, um dia, você gostará muito de ouvir essa história. Não me leve a
mal meu anjinho, foram muitos percalços e luta interna pra ter condição emocional de te
contar como tudo aconteceu. Ainda que minha memória não seja tão cheia de detalhes,
com certeza ela está mais leve e feliz. Talvez, mesmo sem perceber, seja por isso que eu
tenha esperado tanto tempo.
Eu já estava com quase 40 semanas e havia parado de trabalhar com 38, pois todo o
peso da gravidez veio de uma vez e ficou impossível atender qualquer paciente me
reclinando tanto. Isso foi ótimo, pois eu fui obrigada a me desligar e ficar conectada
somente a você e ao papai. Os dias foram passando e a ansiedade aumentando. Eu
andando igual uma patinha pra lá e pra cá e nem sinal de você querer vir. A família já tinha
feito bolão pra adivinhar o dia do seu nascimento, todos perderam e nada de você chegar;
seu quartinho já estava pronto; sua mala feita. Eu já tinha assistido vários filmes melosos e
séries prediletas; tomado banho quente no escuro com música romântica, papai fazendo
massagem; continuava firme na academia; já tinha subido o morro da nossa rua por vários
dias seguidos; abandonado o elevador e subido de escadas; comprado bola de pilates e
feito todos os exercícios aprendidos; tomado todos os chás que diziam ser bons para entrar
em trabalho de parto e nada de você decidir chegar. Confesso que eu já estava bem
ansiosa (você ainda vai perceber que esse é um grande defeito dessa sua mãe aqui). Eu
achava que ainda iria demorar para te conhecer, pois não sentia muitas mudanças no meu
corpo. Nada de tampão mucoso, nada de dor de barriga, nem vontade de faxinar a casa.
Nada de nada que sempre diziam que a gente sente pouco tempo antes do bebê nascer.
Em uma terça-feira pela manhã (dia 26 de julho) eu levantei mais cedo, pois não
conseguia mais dormir e fui assistir a um filme bem bobinho de amor (nem lembro mais o
nome) e comecei a ter enjôo, fui controlando até não dar mais e eu corri pra vomitar.
Nessa hora senti um líquido escapando lá embaixo e pensei que fosse xixi, (Pôxa, que chato,
não tive escape a gravidez inteira e agora no final acontece isso, eu pensei), mas
continuava pingando um pouco de cada vez, eu tomei um banho e nada de parar, então
seu pai e eu começamos a achar que poderia ser a bolsa que se rompeu e ficamos felizes
afinal a “nossa hora” tão esperada tinha chegado. De repente veio uma enxurrada de
líquido e não tive mais dúvida, era mesmo a bolsa que havia estourado. Eu queria rir e
chorar ao mesmo tempo. Seu pai correu pra colocar o bebê conforto no carro, pois era a
única coisa que ainda faltava. Eu mandei mensagem pro dr. Hemmerson e pra Lena (nosso
médico e nossa doula) avisando do ocorrido. Dr Hemmerson me deu os parabéns e Lena
disse pra eu ficar calma pra ver se era realmente a bolsa e se eu já tinha contrações ao que
eu respondi que não. (Lena com certeza deve ter ficado com “dó” de mim… Pensando num
trabalho de parto sem bolsa..aiaiai).
Lemos um material que HM nos mandou e fomos numa consulta com ele além de
fazer um US e tava tudo bem. Você estava ótimo, bem baixo, batimentos muito bons, ainda
com muito líquido. Decidimos esperar o trabalho de parto engrenar naturalmente, sem
induções. HM percebeu que eu já estava com contrações e me disse que, aos poucos, elas
iriam começar a ficar doloridas e que pela experiência dele tudo começaria naquela noite
(santa experiência). Fomos almoçar na sua vovó Ló, depois fomos ao shopping tomar
sorvete e fazer alguns exames de sangue e voltamos pra casa à tardinha. Bom, aí eu já não
lembro mais o que fiz direito, porque minha memória já não me permite recordar de tudo.
Mas por volta de nove da noite (12 horas após o rompimento da bolsa) eu comecei a sentir
umas dores bem mais intensas. Até então eram dores mais leves e eu estava me achando
muito forte (hahaha, coitadinha de mim, quanta ingenuidade). As dores foram se
intensificando cada vez mais e eu cheguei a ficar feliz por estar sentindo aquelas famosas
contrações, a dor da chegada de uma vida!!! Meu Deus como eu sonhei com aquele
momento!!!!! Em determinado ponto eu sentei no vaso e quando as contrações vinham seu
pai ficava em pé na minha frente e eu abraçava e apertava ele bem forte até que a dor
fosse embora. Então o papai me lembrou de usar o Tens e foi ótimo, pois melhorou a
intensidade das contrações por um tempo e parecia que elas ficavam mais curtas. Mas
nem sempre resolvia. A essa altura, seu pai já estava conversando com HM e Lena. Acho
que por volta de 00:30 às contrações estavam de 8 em 8 min e meia hora depois de 5 em 5
(eu só sei disso porque seu pai marcou e eu pude ler tudo depois, pois jamais lembraria
desses detalhes de tempo) Por volta de 01:00 da manhã eu já estava sentindo muita dor,
muita mesmo, meu Deus, foi muito rápida a evolução de “dorzinha besta” para “VOU
MORRER!!!!”
Seu pai já tinha combinado tudo com HM e com Lena e decidi que era hora de irmos
pra maternidade, pois o banho quente não resolveu absolutamente nada pra mim. Eu
queria mesmo era entrar na banheira, famosa banheira quentinha que alivia tudo, e
receber as massagens da Lena. Eu entreguei uma carta que havia escrito pro seu pai e só
saí do quarto quando ele a leu, uma mão na carta e outra mão dada a mim pra ser
esmagada durante as contrações. E ele ainda disse “amada, deixa pra depois”, mas eu não
quis, eu queria que ele lesse em casa. Bom, então fomos, mas era tanta tralha pra colocar
no carro que seu pai levou tudo primeiro enquanto eu fiquei sentada no chão da sala
apoiada com a cabeça no sofá me contorcendo de dor e com muita raiva de ter que esperar
ainda. Quando ele voltou, lá fomos nós. Ainda chequei a lista de afazeres pra serem
realizados antes de irmos pra maternidade e lembrei de tirar uma última foto com seu pai
na frente do espelho com aquela barrigona que me acompanhava há meses e eu sabia que
sentiria muitas saudades. Mas eu nunca vi essa foto, devo estar o caos em forma de
mulher. Na verdade nem sei onde eu tava com a cabeça quando inventei isso.
O caminho pra maternidade eu me lembro vagamente. Lembro que doía muito e eu
apertava forte aquele apoio de mãos e nos intervalos não largava meu travesseiro por
nada. Quando chegamos na maternidade, a doce Bel que veio nos receber, pois a Lena
estava com outra gestante. Junto dela estava o dr HM e seu padrinho Xande, que ia
fotografar seu parto. Bel me deu a mão e me ajudou a subir os primeiros lances de escada,
onde logo eu já tive uma contração. Subi direto para a suíte de parto enquanto seu pai
cuidava das burocracias. Dr HM me acompanhou e fomos subindo as escadas bem
devagar. Eu sabia que conseguiria e já estava feliz achando que você não iria demorar
muito pra nascer. Quando chegamos na suíte, Bel me ajudou a tirar o vestido e a tentar
achar uma posição confortável. Pra falar a verdade, eu só queria deitar na cama e apertar
forte meu travesseiro. Eu não sei porque mas fiquei muito introspectiva, não falava, não
gritava, bem diferente do que eu pensava que seria. Só gemia de dor, me contorcia a cada
contração.
Quando HM veio me examinar perguntou se eu queria saber qual dilatação eu
estava e disse que muitas mães optavam por não saber. E eu falei logo que queria saber
sim e fiquei pensando como tem mulher evoluída nesse mundo que consegue não saber
isso. Enfim, estava na esperança de já estar com 9 pra 10, mas no fundo achava que estava
com uns 7cm. Pensava que eu era uma “musa parideira” #sqn. HM falou “você está com 5
cm, parabéns!!! Estamos indo muito bem”, eu pensei “bem???? Como assim??? Eu senti
toda essa dor e nem cheguei na parte mais dolorida ainda??? Aí Meu Deus me dê forças” e
Ele me deu muita força filho, a mamãe aqui chorona e dramática foi firme e algum tempo
depois, mais um toque (eu não sentia incômodo a mais nos toques como muitas mulheres
relatam sentir, aliás, acho que era impossível sentir mais dor do que as que eu já sentia) e
já estava em 7 cm. Isso me animou, estava progredindo bem e isso eu já sabia que era um
bom sinal. Vamos pra banheira, pra bola, pro chuveiro, pra cama, pro vaso, em pé. Todo
lugar íamos tentando e seu pai ali ao meu lado, firme e forte o tempo inteiro, todo
apertado, todo mordido e quase sempre em silêncio (aliás, como seu papai foi incrível
também). Não consigo me lembrar onde eu sentia as dores, eu tento e tento, mas não
consigo lembrar se era no baixo ventre, nas costas, na barriga. Enfim, só sei que doía e doía
muito!!! Muito mais do que eu imaginei que pudesse doer. Eu me retraia inteira. Não
escutava nada. Não ouvia nenhuma música que estava tocando, às vezes ouvia a voz doce
da Bel cantarolando alguma música e isso me dava um certo conforto emocional, mas o
Papa podia entrar pra me abençoar que infelizmente eu nem o veria. Eu esbravejei em
certo momento e seu pai dizia “isso amada, grita, pode gritar” Isso me irritou
profundamente. Eu disse que sabia que podia gritar, só não gritava porque não tinha
forças, foi como se eu tivesse entrado num mundo à parte. Nessa hora fui um pouco grossa
com seu pai, coitado. Julguei ter passado mais duas horas e mais um toque: 9 cm. UAU!!!
As dores não eram em vão afinal de contas. “Tá quase” eu pensei. Dali em diante eu já não
tinha mais descanso, tinha a impressão de que era uma contração contínua, às vezes sentia
frio, às vezes calor e sede, muita sede. Em um certo momento comecei a sentir uma
vontade de te empurrar, mas não foi tão forte. Eu me lembro até de dizer que queria nascer
homem na próxima encarnação pra não passar por aquilo novamente (cada bobeira que a
gente pensa), me lembro que olhei pro dr. HM e falei que não aguentava mais. Ele me
olhava nos olhos e segurava minha mão, em silêncio. Mas eu não queria anestesia, eu
queria que você nascesse logo, era só o que eu queria.
Um certo tempo depois, ele e Bel me pediram pra sair da banheira, um novo toque e
continuava com 9cm. Isso pra mim foi o pior momento. “Como assim? Foram os momentos
mais doloridos e não adiantou NADA?” Eu não sabia mais se conseguiria, tive medo e toda
certeza que sempre tive de que teria um parto natural foi se esvaindo, mas eu já tinha
ouvido outras histórias assim, que às vezes o trabalho de parto dá uma estacionada, mas
que logo logo tudo engrena novamente, consegui me lembrar disso e me apegar a isso,
não desistiria assim tão fácil, procurei não me entregar a esses pensamentos, mas confesso
que não era fácil. Mais um tempo passado, outro toque e 9cm novamente, eu sentia algo
estranho no ar, mas não sabia se era impressão minha. Eu não aguentava mais. Tinha
chegado ao meu limite. Era muita dor e sem resultados. Chamei seu pai no banheiro e falei
que não estava mais suportando, que não tava bem emocionalmente e que queria
anestesia, eu senti que seria o melhor pra nós, que seria literalmente uma “injeção de
ânimo”. Seu pai me disse alguma coisa, mas não me lembro mais, mas me apoiou e me
abraçou e quando sai do banheiro o anestesista já estava na suíte. Quando me anestesiou
eu fui ao céu. Que maravilha, a dor se transformou em algo quase nulo. E assim descansei
um pouco, sorri, conversei com seu pai, com seu padrinho e pensei “que beleza, agora vou
conseguir, vou fazer tudo direitinho como “aprendi com epi-no”.
Passado mais um tempo, talvez duas horas e ainda estávamos em 9 cm. Eu já estava
ficando preocupada, seus batimentos não estabilizavam e então dr HM veio pra mim e eu
já sabia tudo que ele iria dizer, mas o jeito que ele disse eu nunca esqueci. Me explicou toda
a parte técnica do que estava acontecendo e por fim me perguntou “o que você quer?” Eu
respondi “quero o que for melhor pro meu filho e pra mim” ele disse “então fique tranquila,
pois isso será feito, você não veio aqui buscar um parto, você veio buscar seu filho, você é
madura pra não se frustrar com isso, já está na hora de conhecermos esse pequeno, ele
está cansado e você também” Foi mais ou menos isso, não necessariamente nessa ordem.
Bom meu filho, aí a mamãe chorou muito, não vou negar, aliás, ainda choro até
hoje, confesso. Seu pai e eu nos abraçamos por um longo momento emocionados,
resignados e apreensivos. Nada foi como sonhamos, buscamos e planejamos. Mas a vida é
assim não é mesmo? Eu queria que você nascesse naturalmente, queria sentir tudo o que já
tinha ouvido falar sobre o nascimento natural de um filho, toda descarga de hormônios e
de amor, queria que, ao nascer, você viesse logo pros meus braços e que eu fosse a
primeira a segurar você, queria que me olhasse logo e que reconhecesse minha voz, afinal
eu tinha até sonhado com tudo que iria te dizer, queria sentir seu cheirinho e seu corpinho
buscando o meu peito, mas ao invés disso fomos pro centro cirúrgico e você nasceu com
exatas 40 semanas no dia 27 de julho de uma cirurgia abençoada que salvou sua vida.
Conseguimos que suas avós vissem seu nascimento, assim como sua madrinha Nanda e
sua tia Flávia, além do padrinho Xande que estava no bloco e seu papai que não largava
minha mão por um segundo sequer, acredite filho, foi emocionante demais. A luz do
refletor era a única acesa naquele bloco no momento em que você nasceu e tocava
“casinha branca”, a música predileta do seu vovô Péricles. Dr HM abaixou o campo e eu vi
você saindo de dentro de mim. Não foi como eu sonhei, confesso, mas foi muito lindo,
humano e respeitoso. Você nasceu um pouco hipotônico, cansado e eu fiquei preocupada,
mas depois de um tempo ouvi seu chorinho gostoso, o choro mais lindo e calminho de se
ouvir e isso me deu paz e fez brotar o amor mais puro que já pude sentir. (Você estava
totalmente girado com a cabecinha pra frente em OS e não desceu totalmente e depois de
um tempo seus batimentos começaram a cair). Após os 5 minutos seu Apgar passou de 6
pra 9 e logo você veio ficar comigo, seu cheirinho era incrível. Como eu queria fazer um
perfume daquele cheirinho!!! Arrependimento de não ter guardado a touquinha que estava
usando. Logo você começou a mamar e ficou assim por mais de uma hora. O papai e eu
ficávamos olhando pra você sem acreditar. Finalmente estava em nossos braços, cercado
de amor.
Com o tempo percebi que tudo aquilo que eu sonhei foi baseado na história de
outras mulheres e outros bebês, a nossa história era só nossa e de uma maneira ou de
outra tudo foi acontecendo do nosso jeitinho e ao nosso tempo. E eu que busquei tanto sua
chegada da forma mais natural possível fui entendendo que fiz o melhor pra você, mas pra
mim também. Não me arrependo de nada, hoje conto tudo com mais leveza e já quero
sentir tudo novamente. Descobri uma mulher tão forte em mim e só tenho a te agradecer,
pois foi tudo graças a você filho. Eu me tornei mais forte, mais mulher, mais destemida. Só
quem passa por um momento tão crucial, carnal e irracional como esse entende o que falo,
entende as escolhas que fiz e entende eu querer passar por tudo novamente se assim a
vida permitir.
Agora um ano depois aqui estou eu terminando de escrever esse relato com olhos
marejados e você adormecido em meu peito como tantas outras incontáveis vezes durante
esse ano. Que delícia!!! Hoje à noite tem parabéns, tem sorrisos, tem gritinhos, tem
beijinhos e meu coração transborda de tanta felicidade!!! Te amo meu anjinho!!!
Beijos da sua mamãe,
Jana