Instituto Nascer

Bebê dormindo

Fisiologia do Sono Infantil: entender para respeitar, entender para não atrapalhar

Há anos eu repito uma ideia simples, mas profundamente transformadora:

Toda gestante deveria estudar fisiologia do parto.
Toda puérpera deveria estudar fisiologia do sono infantil.

Não para “controlar” o bebê.
Não para criar bebês que dormem como adultos.
Mas para entender a fisiologia — e, a partir disso, respeitá-la, favorecê-la e não atrapalhá-la.

O sono do recém-nascido é um dos temas que mais geram angústia no puerpério. Não porque seja patológico, mas porque é profundamente diferente do sono adulto — e quase ninguém explica isso com clareza.

Este texto é um convite: trocar expectativa por compreensão.

O que é o sono do recém-nascido?

O sono do recém-nascido não é uma versão imatura do sono adulto.
Ele é um estado neurobiológico próprio, adaptado às necessidades de um cérebro que está em intenso processo de maturação.

Nos primeiros meses de vida, o sono é:

  • Polifásico (distribuído em vários períodos ao longo de 24 horas)
  • Curto em ciclos
  • Fortemente ligado à alimentação, ao contato e à regulação fisiológica

Isso não é um problema.
É exatamente o que o cérebro humano precisa nesse período.

Como funciona a fisiologia do sono nos primeiros meses?

Arquitetura do sono

O recém-nascido não apresenta ainda as fases de sono bem definidas como no adulto. Em vez disso, observamos:

  • Sono ativo (semelhante ao REM):
    • Movimentos corporaisExpressões faciaisRespiração irregularAlta atividade cerebral
    Essa fase é fundamental para o desenvolvimento neurológico e para a plasticidade cerebral.
  • Sono tranquilo (semelhante ao NREM):
    • Respiração regular
    • Pouco movimento
    • Estado mais estável
  • Sono indeterminado, típico das transições

Nos recém-nascidos, até 50% do sono é sono ativo, proporção muito maior do que em adultos. Isso não é coincidência: o cérebro está sendo literalmente construído.

Ciclos curtos e despertares frequentes

Os ciclos de sono do recém-nascido duram em média 40 a 60 minutos.
Ao final de cada ciclo, um despertar parcial ou completo é fisiológico.

Esses despertares permitem:

  • Alimentação frequente (essencial para crescimento e estabilidade metabólica)
  • Proteção contra hipóxia prolongada
  • Ajustes térmicos e posturais
  • Manutenção do vínculo e da regulação emocional

Esperar que um recém-nascido “durma a noite toda” é biologicamente incompatível com sua fisiologia.

Quanto um bebê dorme? (médias, não metas)

É fundamental entender que existe ampla variabilidade individual. Ainda assim, as médias ajudam a alinhar expectativas:

  • 0–3 meses: 14 a 18 horas por dia
  • 3–6 meses: 14 a 16 horas por dia
  • 6–12 meses: 12 a 15 horas por dia

Distribuídas ao longo de 24 horas, com predominância gradual do sono noturno à medida que o ritmo circadiano amadurece.

Sono noturno e despertares nos primeiros meses de vida

Sono noturno: período predominante entre ~19h e 7h, incluindo despertares.

Idade do bebêDuração média do sono noturnoNº médio de despertares noturnosInterpretação fisiológica
0–1 mês6–8 h (fragmentadas)3–6 despertaresRitmo circadiano ausente; despertares essenciais para alimentação e proteção
1–2 meses7–9 h (fragmentadas)3–5 despertaresInício discreto da diferenciação dia/noite
2–3 meses8–10 h2–4 despertaresPrimeiros períodos um pouco mais longos de sono
3–4 meses9–10 h2–3 despertaresRitmo circadiano em consolidação
4–6 meses9–11 h1–3 despertaresMaior previsibilidade, ainda fisiológica
6–9 meses10–11 h1–2 despertaresSono mais consolidado na maioria dos bebês
9–12 meses10–12 h0–2 despertaresRitmo circadiano mais maduro; despertares ainda normais

Ritmo circadiano: ele ainda não está pronto

O recém-nascido não nasce com o “relógio biológico” ajustado.

A produção de melatonina, a diferenciação clara entre dia e noite e a consolidação do sono noturno são processos que:

  • Dependem da maturação neurológica
  • Sofrem influência da luz natural
  • Evoluem progressivamente ao longo dos primeiros meses

Não é o bebê que está “invertendo o dia pela noite”.
O ritmo circadiano ainda está em construção.

O que favorece a fisiologia do sono infantil

1. Expectativas realistas

Entender o que é normal reduz sofrimento.
Grande parte da exaustão emocional no puerpério vem da ideia equivocada de que algo está “errado”.

2. Contato e regulação

Contato pele a pele, colo, amamentação e responsividade não “viciam” o bebê — organizam o sistema nervoso imaturo.

3. Ambiente previsível

Luz natural durante o dia, ambiente mais silencioso e escuro à noite ajudam o cérebro a reconhecer padrões, sem rigidez.

4. Sono seguro

Dormir de barriga para cima, em superfície firme, sem objetos soltos, com compartilhamento de quarto (e não de cama), protege e respeita a fisiologia.

O que atrapalha a fisiologia do sono

1. Tentar impor padrões adultos

Métodos que prometem “ensinar o bebê a dormir” nos primeiros meses ignoram a biologia básica do desenvolvimento humano.

2. Treinos de sono precoces

A literatura científica mostra que, no início da vida, o número de despertares noturnos é fisiológico — e não um comportamento a ser corrigido.

3. Produtos e promessas milagrosas

Dispositivos, cursos e técnicas que prometem resolver o sono infantil frequentemente:

  • Não têm respaldo científico robusto
  • Criam expectativas irreais
  • Transferem a culpa para a família quando “não funcionam”

Uma mensagem necessária sobre os “vendedores de ilusão”

O sono infantil virou mercado.

Há quem venda a ideia de que:

  • O bebê acorda porque “aprendeu errado”
  • A mãe responde demais
  • O problema é a associação de sono
  • Basta seguir um método para “resolver”

A ciência mostra outra coisa:

O recém-nascido acorda porque isso protege sua vida e organiza seu cérebro.
Não existe técnica que acelere de forma saudável a maturação neurológica.
Não há atalhos para o desenvolvimento humano.

Quando prometem controle, normalmente entregam culpa.

Para concluir

Entender a fisiologia do sono infantil não faz o bebê dormir mais rápido.
Mas faz a família sofrer menos, confiar mais e cuidar melhor.

Assim como no parto, quando respeitamos a fisiologia, o processo flui melhor.
Quando tentamos dominá-la, quase sempre criamos mais problemas do que soluções.

No Instituto Nascer, seguimos acreditando nisso:
Entender para respeitar, entender para favorecer, entender para não atrapalhar.

Hemmerson Henrique Magioni, Médico Obstetra, Fundador e Diretor Técnico do Instituto Nascer / Comunidade Nascer / Nascer Academy – CRM-MG 34455

Fontes científicas

  • Mindell JA et al. Development of infant sleep. Sleep Medicine Reviews
  • Graven SN. Sleep and brain development in newborns. Clin Perinatol
  • American Academy of Pediatrics (AAP). Sleep and Safe Sleep Guidelines
  • UpToDate®. Normal sleep patterns in infants
  • Galland BC et al. Normal sleep patterns in infants and children. Sleep Medicine Reviews
  • NICE Guidance – Postnatal care
  • Cochrane Library – Parent-infant interaction and sleep

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