Introdução
Receber a informação de que você tem alto risco para pré-eclâmpsia pode gerar medo, ansiedade e muitas dúvidas. Este material foi criado para informar, acolher e empoderar, mostrando que a ciência atual permite prever, prevenir e acompanhar a pré-eclâmpsia de forma muito mais segura do que no passado.
Aqui no Instituto Nascer, acreditamos que: a maioria das complicações graves da gestação pode ser evitada com triagem correta, prevenção precoce e cuidado pré-natal de qualidade.
O que é Pré-eclâmpsia?
A pré-eclâmpsia é uma condição exclusiva da gravidez, que geralmente surge após 20 semanas, caracterizada por:
- Elevação da pressão arterial
- Associada a sinais de comprometimento de órgãos maternos (rins, fígado, cérebro, coagulação)
- E/ou sinais de comprometimento da placenta e do bebê
Ela faz parte de um espectro chamado doenças hipertensivas da gestação, que inclui:
- Hipertensão gestacional
- Pré-eclâmpsia
- Pré-eclâmpsia com sinais de gravidade
- Eclâmpsia
- Síndrome HELLP
*Importante: a pré-eclâmpsia não é apenas “pressão alta”. Ela é uma doença sistêmica, inflamatória e vascular, cuja origem está, na maioria dos casos, na formação inadequada da placenta.
Por que a Pré-eclâmpsia acontece?
Hoje sabemos que a pré-eclâmpsia:
- Começa muito cedo na gestação, ainda no primeiro trimestre
- Está relacionada a uma placentação inadequada
- Envolve um desequilíbrio entre fatores que estimulam e inibem a formação de vasos sanguíneos
Quando a placenta não se desenvolve adequadamente:
- O fluxo de sangue para o bebê fica prejudicado
- Substâncias inflamatórias entram na circulação materna
- A pressão sobe e órgãos podem ser afetados
*Esse conhecimento é a base da prevenção moderna da pré-eclâmpsia.
O que significa ser classificada como “alto risco para PE”?
Ser classificada como alto risco não significa que você terá pré-eclâmpsia, mas sim que: você tem características que aumentam a probabilidade e, por isso, merece vigilância e prevenção mais cuidadosas.
Essa classificação permite:
- Iniciar estratégias comprovadamente eficazes
- Intensificar o acompanhamento
- Reduzir complicações maternas e fetais
Quais são os fatores de risco para Pré-eclâmpsia?
Hoje utilizamos um modelo integrado, baseado em três grandes grupos de marcadores de risco:
- Clínicos
- Ultrassonográficos
- Bioquímicos e moleculares
1️⃣ Marcadores de risco clínicos
Relacionados à história de saúde e antecedentes da gestante.
Fatores de alto risco:
- Pré-eclâmpsia em gestação anterior
- Hipertensão arterial crônica
- Doença renal crônica
- Diabetes tipo 1 ou 2
- Doenças autoimunes (lúpus, SAF)
- Gestação gemelar
- Fertilização In Vitru (FIV)
Fatores de risco moderado:
- Primeira gestação
- Idade ≥ 35 anos
- IMC elevado antes da gestação
- História familiar de pré-eclâmpsia (mãe ou irmã)
- Intervalo longo entre gestações
- Intervalo > 10 anos da última gestação
- Raça/cor: Preta ou parda
- Baixa condição socioeconômica
- Gravidez prévia com desfecho adverso relacionado a disfunção placentária: Descolamento prematuro de placenta / Restrição de crescimento fetal / Trabalho de parto prematuro / Óbito fetal.
*Um fator de alto risco ou dois moderados já justificam prevenção.
2️⃣ Marcadores de risco ultrassonográficos
Avaliam como está a circulação entre o útero, a placenta e o bebê.
O principal exame é o:
Doppler das artérias uterinas
Ele pode mostrar:
- Aumento da resistência ao fluxo sanguíneo
- Sinais de perfusão placentária inadequada
Esses achados ajudam a:
- Refinar o risco
- Identificar quem mais se beneficia da prevenção precoce
3️⃣ Marcadores bioquímicos e testes moleculares
Representam hoje o nível mais avançado de triagem de risco para pré-eclâmpsia.
Eles avaliam como a placenta está funcionando, antes mesmo do aparecimento de sintomas: PAPP-A, PlGF (Placental Growth Factor), sFlt-1 e Relação sFlt-1 / PlGF.
*A pesquisa para marcadores moleculares ainda não faz parte da rotina do cuidado no Brasil.
Testes moleculares integrados (modelos combinados)
Alguns protocolos modernos utilizam modelos matemáticos e moleculares, que combinam:
- Fatores clínicos
- Doppler uterino
- Pressão arterial média
- Marcadores bioquímicos
Esses modelos, como os da Fetal Medicine Foundation (FMF), conseguem:
- Identificar até 75–90% dos casos de pré-eclâmpsia precoce
- Com baixa taxa de falso-positivo
*Importante: Os testes moleculares não substituem o pré-natal, mas refinam a personalização do cuidado.
O que fazer após a classificação de alto risco?
O cuidado passa a se basear em três pilares:
1️⃣ Prevenção
2️⃣ Monitorização
3️⃣ Cuidado integral e individualizado
Por que a prevenção é tão importante?
A pré-eclâmpsia está associada a:
- Parto prematuro
- Restrição de crescimento fetal (CIUR)
- Descolamento de placenta (DPP)
- Complicações maternas graves
- Maior risco cardiovascular futuro para a mulher
A boa notícia: a prevenção reduz significativamente esses riscos.
Estratégias de prevenção baseadas em evidências
Ácido Acetilsalicílico (AAS) em baixa dose
É a estratégia com maior nível de evidência científica.
Como atua:
- Melhora a formação da placenta
- Reduz inflamação
- Melhora o fluxo sanguíneo uteroplacentário
Como usar:
- Dose: 100–150 mg ao dia
- Início ideal: 12–16 semanas
- Preferencialmente à noite
- Manter até 36–37 semanas (ou orientação médica)
*Reduz pré-eclâmpsia precoce, parto prematuro e complicações graves.
Monitorização clínica rigorosa
- Aferições regulares da pressão (comunicar caso PA >= 140/90)
- Atenção aos sintomas (inchaço repentino (edema) no rosto e mãos, dores de cabeça intensas e persistentes, visão turva ou pontos brilhantes (escotomas), dor na parte superior do abdômen e náuseas/vômitos).
- Diagnóstico precoce muda desfechos
Acompanhamento ultrassonográfico
- Avaliação do crescimento fetal
- Doppler seriado quando indicado
Controle de comorbidades
Hipertensão, diabetes, obesidade e doenças autoimunes devem ser rigorosamente acompanhadas.
Cuidado global
- Alimentação equilibrada
- Ganho de peso adequado
- Atividade física segura (150 min por semana)
- Correção de deficiências nutricionais
Obs: A prática regular de atividade física durante a gestação, quando liberada pelo obstetra, é um importante fator de proteção contra a pré-eclâmpsia. As principais diretrizes internacionais recomendam pelo menos 150 minutos por semana de atividade física aeróbica de intensidade leve a moderada, distribuídos ao longo da semana, como caminhadas, bicicleta ergométrica, hidroginástica ou exercícios funcionais adaptados. Esse nível de atividade contribui para o melhor controle da pressão arterial, da inflamação e da função vascular, mecanismos diretamente relacionados à pré-eclâmpsia. A atividade física não substitui a prevenção medicamentosa quando indicada, mas atua como um complemento fundamental no cuidado pré-natal de qualidade.
Sinais de alerta
Procure atendimento se apresentar:
- Dor de cabeça intensa
- Alterações visuais
- Inchaço súbito
- Dor abdominal à direita
- Falta de ar
- Diminuição dos movimentos do bebê
Mensagem Final
Ser classificada como alto risco para pré-eclâmpsia significa que: sua gestação está sendo cuidada com atenção, ciência e responsabilidade.
No Instituto Nascer:
- A triagem é precoce
- A prevenção é baseada em evidências
- O cuidado é humano e individualizado
A pré-eclâmpsia não define sua gestação. O cuidado de qualidade define o desfecho.
Hemmerson Henrique Magioni, Médico Obstetra, Fundador e Diretor Técnico do Instituto Nascer, Comunidade Nascer e Nascer Academy – CRM-MG 3445.
Referências Científicas
- ACOG Practice Bulletin No. 222 – Gestational Hypertension and Preeclampsia
- NICE Guideline NG133 – Hypertension in Pregnancy
- RCOG Green-top Guideline – Hypertension in Pregnancy
- Cochrane Database of Systematic Reviews – Aspirin for preventing pre-eclampsia
- UpToDate – Prediction and prevention of preeclampsia
- Fetal Medicine Foundation – First-trimester screening for pre-eclampsia
- PubMed – sFlt-1/PlGF ratio and placental dysfunction




