Instituto Nascer

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Cesariana a pedido: reflexão, ciência e mensagem ética do Instituto Nascer

O Brasil vive um dos maiores percentuais de cesarianas no mundo — mais de metade dos partos realizados são cesarianas, com taxas ainda maiores no setor privado. Em muitos casos, essa cirurgia não surge tanto de uma escolha consciente da mulher, mas de como o sistema de saúde e a cultura médica conduzem as gestantes ao longo da gravidez e do trabalho de parto, muitas vezes reduzindo o protagonismo da mulher frente às decisões sobre seu corpo e sua gestação. Esse padrão — em que a cesariana é apresentada como “rotina” ou inevitável — contrasta com um cuidado centrado na fisiologia do parto e na autonomia materna.

Entretanto, existe uma categoria distinta: a cesariana a pedido materno (em inglês, cesarean delivery on maternal request – CDMR), definida como a realização de uma cesariana sem indicação médica ou obstétrica em uma gestante que poderia tentar o parto vaginal, após aconselhamento adequado e decisões informadas.

O que é a cesariana a pedido?

A cesariana a pedido materno é uma intervenção cirúrgica eletiva solicitada pela gestante em ausência de indicações clínicas para cesariana e sem contraindicação objetiva ao parto vaginal.

Isso a diferencia de situações em que a cesariana é “imposta” ou recomendada pelo sistema de saúde sem diálogo profundo ou compreensão plena por parte da mulher — cenário bastante comum no Brasil. Uma cesariana a pedido de fato é uma decisão da mulher, após recebimento de informações completas, e não um encaminhamento automático ou uma conveniência institucional.

Quando pode ser realizada?

As principais organizações científicas, como o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), recomendam que:

  • A cesariana a pedido NÃO seja feita antes das 39 semanas completas de gestação, para evitar complicações respiratórias e de adaptação neonatal associadas à maturidade pulmonar insuficiente.
  • A decisão seja tomada após avaliação individualizada considerando fatores como idade materna, índice de massa corporal, valores pessoais, planos reprodutivos futuros e contexto cultural.
  • A falta de disponibilidade de analgesia ou suporte ao parto não seja motivo para indicar cesariana a pedido — ou seja, a decisão deve ser da mulher informada, não uma resposta à falta de recursos de cuidado.

Por que respeitar essa escolha — e o que evitar?

Respeitar a autonomia da mulher significa ouvir suas razões, acolher seus temores e medos, e oferecer informação clara e baseada em evidência sobre as opções de nascimento. Medo intenso do parto, experiências traumáticas anteriores ou condições psicoemocionais podem ser motivos legítimos de sofrimento e merecem suporte adequado. Nesses casos, mesmo que sem indicação médica objetiva para cesariana, a opção por essa via pode ser parte de uma decisão bem fundamentada e respeitosa.

O que deve ser evitado é:

  • Pressionar a mulher a aceitar uma cesariana sem seu consentimento pleno.
  • Utilizar a cesariana como resposta ao medo ou ansiedade sem oferecer suporte, como educação ao parto, analgesia eficaz ou acolhimento emocional contínuo.
  • Transformar a cesariana em rotina institucional, sem diálogo verdadeiro.

Riscos e benefícios segundo as melhores evidências

A comparação entre cesariana planejada por escolha materna e parto vaginal envolve nuances importantes, e muitas das evidências disponíveis são de qualidade moderada ou baixa.

Benefícios relatados de uma cesariana a pedido

  • Em alguns estudos, menor risco de hemorragia pós-parto comparado a um conjunto de partos vaginais mais cesarianias de emergência.
  • Possível redução de episódios de incontinência urinária no primeiro ano pós-parto.

Riscos e desvantagens associados

  • Maior risco de complicações cirúrgicas agudas (infecção, retorno à sala de cirurgia) e maior permanência hospitalar.
  • Para o recém-nascido, maior probabilidade de problemas respiratórios se a cesariana for feita muito precocemente (< 39 semanas).
  • Riscos em gestações subsequentes, como placenta prévia, placenta acreta e necessidade de histerectomia, que aumentam conforme o número de cesarianas cresce ao longo da vida reprodutiva.

Revisões sistemáticas mais amplas também apontam que, comparadas ao parto vaginal, as cesarianas tendem a trazer maiores riscos de mortalidade e infecção materna, embora sejam procedimentos em sua maioria seguros quando realizados em ambiente adequado.

Esses riscos não invalidam a escolha em si, mas reforçam a necessidade de aconselhamento estruturado baseado em evidência e informação transparente para cada mulher, com avaliação de seus planos reprodutivos futuros.

O que dizem as diretrizes internacionais

As recomendações científicas atuais convergem em alguns pontos chave:

  • ACOG: reforça que, na ausência de indicação médica, o plano de parto vaginal é seguro e apropriado, mas se a mulher, após aconselhamento completo, optar por cesariana, essa escolha deve ser respeitada e agendada após 39 semanas.
  • FIGO (International Federation of Gynecology and Obstetrics) coloca a discussão da cesariana a pedido dentro de boas práticas que incluem aconselhamento ético, comunicação empática e decisões compartilhadas.
  • Revisões de saúde pública mostram que, quando comparado ao parto vaginal planejado, a cesariana planejada envolve uma combinação de riscos e benefícios que devem ser ponderados individualmente.

Mensagem do Instituto Nascer: autonomia, ética e cuidado

No Instituto Nascer, acreditamos que autonomia informada é um princípio ético fundamental no cuidado ao parto. Uma cesariana a pedido — como qualquer outra decisão de nascimento — deve ser resultado de diálogo qualificado, compreensão mútua e respeito às preferências da mulher, sempre apoiada nas melhores evidências científicas disponíveis.

Ao mesmo tempo, não podemos ignorar o impacto do contexto de cuidado em que essa escolha é feita. Em um país onde muitas mulheres não têm acesso adequado a opções de parto vaginal humanizado, analgesia eficaz ou suporte contínuo, falar de “cesariana a pedido” sem refletir sobre como fortalecer modelos de cuidado baseados na fisiologia, no respeito e na escuta ativa seria reduzir o debate a meras estatísticas.

O Instituto Nascer defende:

  • Informação completa, clara e baseada em evidência para todas as gestantes.
  • Estratégias de cuidado que promovam segurança e bem-estar físico e emocional.
  • Respeito ético e jurídico à autonomia da mulher, entendendo que escolhas de nascimento são profundamente pessoais e multifatoriais.

A decisão sobre a via de nascimento deve ser sua — e sua, plenamente informada.

Hemmerson Henrique Magioni, Médico Obstetra, Fundador e Diretor Técnico do Instituto Nascer, Comunidade Nascer e Nascer Academy – CRM-MG 34455

Principais fontes:

  • ACOG Committee Opinion No. 761: Cesarean Delivery on Maternal Request.
  • ACOG Committee Opinion No. 559: Cesarean Delivery on Maternal Request.
  • FIGO Good Practice Recommendations sobre cesariana a pedido.
  • SBU Assessment: Caesarean section on maternal request – revisão sistemática.
  • Estudo de riscos maternos em cesáreas sem indicação médica (meta-análise).

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