Durante a gestação, muitas famílias começam a refletir sobre os cuidados que desejam para o nascimento do seu bebê. Entre as dúvidas mais frequentes no pós-parto imediato estão duas medidas preventivas tradicionalmente realizadas nas primeiras horas de vida: a aplicação da vitamina K intramuscular e a profilaxia ocular para prevenção da conjuntivite neonatal.
Esses cuidados fazem parte das recomendações do Ministério da Saúde do Brasil e de diversas sociedades científicas internacionais. No entanto, como toda intervenção em saúde, merecem ser compreendidos de forma clara, respeitosa e baseada em evidências.
O que é a vitamina K e por que ela é aplicada no recém-nascido?
A vitamina K é essencial para a coagulação sanguínea. Os recém-nascidos nascem naturalmente com estoques muito baixos dessa vitamina, principalmente porque ela atravessa pouco a placenta e porque o intestino do bebê ainda não possui a flora bacteriana responsável por produzi-la.
Essa deficiência pode levar à chamada “Doença Hemorrágica do Recém-Nascido” ou “Sangramento por Deficiência de Vitamina K”, uma condição rara, mas potencialmente grave, que pode causar sangramentos intestinais, cutâneos e até hemorragias intracranianas.
A forma mais preocupante é a forma tardia, que costuma acontecer entre 2 semanas e 6 meses de vida, principalmente em bebês em aleitamento materno exclusivo que não receberam profilaxia ao nascer. Muitos desses casos evoluem com sequelas neurológicas graves ou até óbito.
Por esse motivo, o Ministério da Saúde, a Organização Mundial da Saúde (OMS), a American Academy of Pediatrics (AAP) e diversas diretrizes internacionais recomendam a administração de vitamina K intramuscular logo após o nascimento.
Quais os benefícios da vitamina K intramuscular?
A aplicação intramuscular de vitamina K é extremamente eficaz na prevenção da doença hemorrágica do recém-nascido, especialmente da forma tardia, que é a mais grave.
Estudos mostram que a profilaxia intramuscular reduz drasticamente o risco de hemorragias graves e possui excelente perfil de segurança.
As reações adversas são raras e geralmente leves, como dor local ou pequeno hematoma no local da aplicação.
Quais os riscos de não fazer?
A recusa da vitamina K aumenta significativamente o risco de sangramentos espontâneos no bebê, especialmente hemorragia intracraniana.
O ponto mais importante é que muitos bebês que desenvolvem a forma tardia da doença estavam aparentemente saudáveis até o momento do sangramento, sem sinais prévios de alerta.
Embora seja uma condição rara, quando acontece pode ter consequências devastadoras.
O que é a profilaxia para conjuntivite neonatal?
A conjuntivite neonatal é uma infecção ocular que pode ocorrer nos primeiros dias de vida, geralmente pela exposição do bebê a bactérias presentes no canal de parto, especialmente gonococo e clamídia.
Historicamente, essa condição era uma importante causa de cegueira infantil no mundo.
Por isso, tornou-se rotina a aplicação de colírios ou pomadas oftálmicas preventivas logo após o nascimento.
No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda a profilaxia ocular neonatal como medida preventiva, especialmente contra infecção gonocócica, utilizando iodopovidina PVPI 2,5%, eritromicina ou tetraciclina oftálmica, conforme disponibilidade local e protocolos institucionais.
Qual o benefício dessa profilaxia?
A principal finalidade é reduzir o risco de conjuntivite neonatal grave, especialmente a causada por gonococo, que pode evoluir rapidamente com ulceração de córnea e perda visual.
Embora atualmente a incidência dessas infecções seja menor devido ao pré-natal adequado e rastreamento de ISTs, ainda existem casos no Brasil e no mundo.
Existem efeitos colaterais?
Alguns recém-nascidos podem apresentar irritação ocular leve e transitória após a aplicação, especialmente com nitrato de prata, incluindo vermelhidão, lacrimejamento e desconforto temporário.
Esses efeitos costumam ser autolimitados.
Humanização também é repensar o “como” fazemos os cuidados
Durante décadas, muitos desses procedimentos preventivos eram realizados de forma automática e imediata, frequentemente nos primeiros minutos de vida, com o bebê chorando em um berço aquecido ou até mesmo longe dos braços dos pais.
Felizmente, o cuidado neonatal vem mudando.
Há mais de 10 anos, no Instituto Nascer, defendemos que práticas preventivas importantes também podem, e devem, ser realizadas de forma mais humanizada, respeitosa e centrada no bebê e na família.
Isso significa priorizar o contato pele a pele, respeitar a primeira hora de vida, favorecer a amamentação precoce e realizar esses cuidados com o bebê calmo, acolhido e, muitas vezes, até mamando no colo da mãe.
Humanizar não significa abandonar a ciência.
Significa unir evidência científica, respeito ao recém-nascido e cuidado emocional com a experiência do nascimento.
E quando a mulher decide não realizar essas profilaxias?
A autonomia da mulher e da família faz parte do cuidado ético e respeitoso ao nascimento.
Nosso papel como profissionais de saúde não é impor decisões, mas oferecer informação clara, baseada em evidências e livre de julgamentos, para que cada família possa compreender benefícios, riscos e limitações de cada escolha.
Ao mesmo tempo, autonomia verdadeira só existe quando há informação qualificada. Por isso, acreditamos profundamente na construção de decisões compartilhadas: com diálogo, acolhimento, ciência e respeito.
Além disso, é importante lembrar que, quando a família opta por não realizar a profilaxia ocular neonatal e/ou a aplicação de vitamina K, algumas maternidades podem solicitar a assinatura de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Esse documento tem como objetivo registrar que os pais receberam orientações adequadas sobre os benefícios dessas medidas preventivas e também sobre os possíveis riscos associados à não realização das profilaxias. Mais do que um instrumento burocrático, o TCLE faz parte do processo de decisão compartilhada e do respeito à autonomia da mulher e da família dentro da assistência ao nascimento.
No Instituto Nascer, seguimos acreditando que o nascimento pode, e deve, ser um encontro entre cuidado humanizado, da autonomia e da medicina baseada em evidências.
Hemmerson Henrique Magioni, Médico Obstetra, Fundador e Diretor Técnico do Instituto Nascer, Comunidade Nascer e Nascer Academy – CRM-MG 34455
Fontes e referências científicas
- Ministério da Saúde do Brasil — Atenção à Saúde do Recém-Nascido: Guia para os Profissionais de Saúde
- Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)
- Organização Mundial da Saúde (OMS/WHO) — Newborn Health Recommendations
- American Academy of Pediatrics (AAP) — Vitamin K and the Newborn Infant
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC) — Vitamin K Deficiency Bleeding
- UpToDate — Prevention of vitamin K deficiency bleeding in newborns
- NICE Guidelines — Postnatal Care
- Cochrane Reviews — Ocular prophylaxis for gonococcal ophthalmia neonatorum
- ACOG — Immediate Care of the Newborn




