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Ultrassom na gestação com diabetes gestacional: por que ele é tão importante?

Receber o diagnóstico de Diabetes Gestacional (DMG) costuma gerar muitas dúvidas. Entre elas, uma das mais frequentes é:

“Agora vou precisar fazer mais ultrassons?”

A resposta é: depende.

Nem toda gestante com diabetes gestacional precisará de um número muito maior de exames. O que realmente faz diferença é como está o controle da glicemia, se há necessidade de uso de medicamentos, se existem outras doenças associadas e, principalmente, o que os ultrassons mostram ao longo da gravidez.

Mais do que simplesmente “ver o bebê”, o ultrassom passa a ser uma ferramenta essencial para acompanhar como ele está crescendo e se desenvolvendo.

O que o diabetes gestacional pode causar no bebê?

A glicose atravessa livremente a placenta. Quando a glicemia materna permanece elevada, o bebê produz mais insulina para controlar esse excesso de açúcar.

A insulina fetal funciona como um potente hormônio de crescimento.

O resultado pode ser um crescimento acima do esperado, conhecido como macrossomia fetal, especialmente quando o diabetes não está adequadamente controlado.

Mas esse não é o único cenário.

Em mulheres que apresentam doenças vasculares associadas, hipertensão ou diabetes pré-existente, também pode ocorrer exatamente o contrário: restrição do crescimento fetal.

É por isso que acompanhar o crescimento do bebê ao longo da gestação é tão importante.

Quais são os parâmetros mais importantes no ultrassom

Embora o exame avalie diversos aspectos da gestação, alguns parâmetros merecem atenção especial no diabetes gestacional.

1. Crescimento fetal

Este talvez seja o objetivo mais importante da vigilância ultrassonográfica.

O ultrassom estima:

  • peso fetal;
  • percentil de crescimento;
  • velocidade de crescimento entre os exames.

Mais importante do que um único exame é observar a tendência de crescimento ao longo do tempo.

Um bebê que cresce rapidamente pode indicar controle glicêmico inadequado.

Por outro lado, um crescimento abaixo do esperado também merece investigação.

2. Circunferência abdominal fetal

Entre todas as medidas realizadas, esta é provavelmente a mais sensível para detectar o impacto do diabetes sobre o bebê.

A circunferência abdominal aumenta precocemente quando existe excesso de glicose disponível para o feto.

Valores elevados podem sugerir hiperinsulinismo fetal e maior risco de:

  • macrossomia;
  • distócia de ombros;
  • necessidade de cesariana;
  • hipoglicemia neonatal.

Por isso, muitos especialistas consideram a circunferência abdominal um dos melhores marcadores ultrassonográficos da repercussão do diabetes gestacional.

3. Quantidade de líquido amniótico

Outro parâmetro muito importante.

O excesso de líquido amniótico (polidrâmnio) pode ocorrer quando o bebê elimina mais urina em resposta ao aumento da glicemia.

Embora nem sempre esteja presente, quando aparece merece atenção.

Além de indicar possível descontrole glicêmico, o polidrâmnio aumenta o risco de:

  • trabalho de parto prematuro;
  • apresentações fetais anormais;
  • prolapso de cordão;
  • hemorragia pós-parto.

4. Fluxometria Doppler

Na maioria das gestantes com diabetes gestacional bem controlado, o Doppler costuma permanecer normal.

Entretanto, quando existem outras condições associadas, como: hipertensão, pré-eclâmpsia, restrição de crescimento fetal ou suspeita de insuficiência placentária, ele passa a ter papel fundamental para avaliar o bem-estar fetal e orientar a condução da gestação.

5. Perfil biofísico fetal

Nas fases finais da gestação, especialmente quando o diabetes exige uso de insulina ou quando surgem outras intercorrências, pode ser necessário avaliar também:

  • movimentos fetais;
  • movimentos respiratórios;
  • tônus fetal;
  • quantidade de líquido amniótico.

Essas informações ajudam a identificar precocemente sinais de comprometimento fetal.

Quem tem diabetes gestacional precisa fazer mais ultrassons?

Nem sempre.

As recomendações atuais defendem uma abordagem individualizada.

Em mulheres com:

  • excelente controle glicêmico;
  • diabetes controlado apenas com alimentação;
  • crescimento fetal normal;
  • ausência de outras complicações,

o número de ultrassons pode ser semelhante ao de uma gestação de baixo risco, com avaliações seriadas do crescimento fetal no terceiro trimestre.

Já nas gestantes que utilizam insulina, apresentam controle glicêmico inadequado, hipertensão, alterações do crescimento fetal ou outras complicações, a vigilância costuma ser mais frequente.

Mais importante do que seguir um número fixo de exames é adaptar o acompanhamento às necessidades de cada gestação.

Quando devemos nos preocupar com o resultado?

Algumas situações merecem atenção especial:

  • crescimento fetal acelerado;
  • circunferência abdominal acima do esperado;
  • peso fetal estimado em percentis elevados;
  • polidrâmnio;
  • desaceleração do crescimento fetal;
  • alterações no Doppler;
  • redução dos movimentos fetais.

Nenhum desses achados deve ser interpretado isoladamente.

Eles precisam ser analisados junto com o controle glicêmico, o exame clínico, a idade gestacional e o histórico obstétrico da paciente.

É justamente essa integração de informações que permite oferecer um cuidado seguro e individualizado.

O ultrassom muda a forma de conduzir o parto?

Frequentemente, sim.

As informações obtidas pelo ultrassom ajudam a equipe a decidir:

  • qual o melhor momento para o nascimento;
  • se é seguro aguardar o início espontâneo do trabalho de parto;
  • quando está indicada a indução;
  • quando um parto vaginal continua sendo a melhor opção;
  • quando o tamanho fetal pode aumentar o risco de distócia de ombros e exigir uma discussão individualizada sobre a via de parto.

Vale lembrar que o ultrassom estima o peso fetal, mas não o mede diretamente. Mesmo nos melhores serviços, há uma margem de erro que pode chegar a cerca de 10%. Por isso, a decisão sobre a via de parto nunca deve se basear apenas em uma estimativa de peso.

A mensagem mais importante

O objetivo do ultrassom no diabetes gestacional não é apenas identificar problemas.

É acompanhar a resposta do bebê ao tratamento.

Quando a glicemia está bem controlada, é muito comum observarmos um crescimento fetal completamente normal e uma gestação evoluindo de forma saudável.

No Instituto Nascer, entendemos que cada ultrassom conta uma parte da história daquela gravidez. Quando interpretado junto com os exames laboratoriais, o controle glicêmico e a avaliação clínica, ele permite um cuidado verdadeiramente personalizado.

Mais do que fazer exames, nosso objetivo é usar cada informação para tomar as melhores decisões no momento certo, reduzindo riscos e aumentando as chances de um parto seguro e de um bebê saudável.

A vigilância ultrassonográfica é, portanto, um dos pilares do cuidado moderno à gestante com diabetes gestacional: não porque todas as mulheres precisem de muitos exames, mas porque cada exame, quando bem indicado e corretamente interpretado, tem o potencial de mudar positivamente o desfecho da gestação.

Hemmerson Henrique Magioni, Médico Obstetra, Fundador e Diretor Técnico do Instituto Nascer, Comunidade Nascer e Nascer Academy – CRM-MG 34455

Referências

  1. American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Practice Bulletin No. 233: Gestational Diabetes Mellitus. Obstet Gynecol. 2021 (com atualizações de prática).
  2. Society for Maternal-Fetal Medicine (SMFM). Consult Series: Management of Gestational Diabetes Mellitus.
  3. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). NG3 – Diabetes in Pregnancy: Management from Preconception to the Postnatal Period. Atualizado.
  4. American Diabetes Association (ADA). Standards of Care in Diabetes – 2026.
  5. FIGO Initiative on Gestational Diabetes Mellitus. Pragmatic Guide for Diagnosis, Management and Care.
  6. ISUOG Practice Guidelines. Role of Ultrasound in Obstetric Care.
  7. UpToDate. Pregestational and Gestational Diabetes: Obstetric Management e Ultrasound Assessment of Fetal Growth in Pregnancies Complicated by Diabetes.

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