“O parto não precisa de uma mulher que saiba o que fazer. Ele precisa de um ambiente onde ela não precise pensar.” — Michel Odent
Vivemos em uma sociedade que nos ensina que tudo precisa ser controlado.
Planejamos agendas, monitoramos resultados, resolvemos problemas e tomamos decisões o tempo todo. Mas existe um momento da vida em que o excesso de controle pode não ajudar. Pelo contrário: pode dificultar um dos processos mais extraordinários do corpo humano.
O trabalho de parto.
Essa talvez seja uma das maiores contribuições do médico obstetra francês Michel Odent para a obstetrícia moderna: compreender que o parto fisiológico não depende, principalmente, da vontade consciente da mulher. Ele depende de um delicado equilíbrio entre cérebro, hormônios e ambiente.
E, curiosamente, esse conceito é cada vez mais respaldado pela ciência.
O parto acontece no cérebro antes de acontecer no útero
Muitas pessoas imaginam que o trabalho de parto acontece apenas porque o útero começa a contrair. Na realidade, o parto começa muito antes disso.
Ele é resultado de uma complexa interação entre o cérebro materno, a placenta, o bebê e uma série de hormônios que trabalham em perfeita sintonia.
Grande parte desse processo é regulada por regiões muito antigas do cérebro, frequentemente chamadas de cérebro primitivo ou sistema límbico, responsáveis por funções involuntárias como respirar, regular a temperatura corporal, dormir, produzir hormônios e responder às emoções.
São processos que não dependem da nossa vontade. Ninguém consegue decidir conscientemente acelerar a digestão, diminuir os batimentos cardíacos ou produzir mais ocitocina.
Com o parto acontece algo semelhante. Quanto mais espontâneo esse funcionamento cerebral permanece, maiores são as condições para que a fisiologia siga seu curso.
A ocitocina: muito mais do que o “hormônio do amor”
A ocitocina costuma ser conhecida como o hormônio do vínculo afetivo. Mas, durante o parto, ela exerce outra função fundamental: é a principal responsável pelas contrações uterinas.
Ela é produzida naturalmente pelo organismo da mulher e apresenta uma característica muito interessante: sua liberação é extremamente sensível ao ambiente.
Quando a gestante se sente protegida, respeitada, acolhida e segura, a produção de ocitocina tende a ser favorecida.
Ao mesmo tempo, ocorre um aumento da produção de endorfinas, substâncias produzidas pelo próprio organismo que ajudam no conforto, na sensação de bem-estar e na adaptação às contrações.
Por outro lado, situações de medo intenso, sensação de ameaça, estresse ou exposição excessiva podem aumentar a liberação de adrenalina.
A adrenalina é um hormônio essencial para situações de perigo real. Ela prepara o organismo para lutar ou fugir.
O problema é que esse estado de alerta pode reduzir a eficiência da ação da ocitocina durante parte do trabalho de parto, tornando as contrações menos coordenadas e dificultando a progressão fisiológica em algumas mulheres.
Essa interação entre ocitocina, adrenalina e ambiente é amplamente reconhecida pela fisiologia do parto.
O ambiente também faz parte da assistência
Quando pensamos em assistência ao parto, muitas vezes lembramos de equipamentos modernos, medicamentos e profissionais altamente capacitados.
Tudo isso é importante. Mas existe outro componente igualmente essencial: o ambiente.
A ciência mostra que algumas condições simples podem favorecer o conforto materno e respeitar melhor a fisiologia quando mãe e bebê estão bem:
- Privacidade.
- Sensação de segurança.
- Iluminação reduzida.
- Sons suaves ou silêncio.
- Liberdade de movimentos.
- Presença de pessoas de confiança.
- Comunicação respeitosa.
- Menor número possível de interrupções desnecessárias.
Isso não significa transformar a maternidade em um ambiente “romântico”. Significa compreender que o cérebro humano responde aos estímulos ao seu redor durante o trabalho de parto. E o ambiente faz parte desse cuidado.
Menos intervenções não significa menos segurança
Uma dúvida muito comum é imaginar que defender a fisiologia significa rejeitar a medicina. Não é isso. A obstetrícia baseada em evidências reconhece que inúmeras intervenções salvaram milhões de vidas ao longo das últimas décadas.
Cesariana quando indicada; Indução do parto quando necessária; Antibióticos; Anestesia; Monitorização fetal; Hemorragia controlada rapidamente.
Tudo isso faz parte da boa assistência obstétrica. O desafio está em outro lugar. É oferecer essas intervenções quando existe uma indicação clínica verdadeira e evitar procedimentos rotineiros que não trazem benefício comprovado para mulheres de baixo risco.
Esse princípio é compartilhado por organizações como a Organização Mundial da Saúde (OMS), o National Institute for Health and Care Excellence (NICE) e diversas sociedades científicas internacionais.
O melhor cuidado não é fazer tudo. Também não é deixar de fazer tudo. É fazer o que cada mulher realmente precisa, no momento certo.
Acompanhar não é o mesmo que conduzir
Talvez uma das maiores mudanças na obstetrícia moderna seja compreender essa diferença. Conduzir um parto pressupõe que o profissional é o protagonista do processo.
Acompanhar um parto significa reconhecer que, na maioria das gestações de baixo risco, a protagonista é a mulher — e que a equipe existe para observar cuidadosamente, oferecer suporte contínuo, identificar precocemente qualquer desvio da normalidade e intervir apenas quando necessário.
Isso exige conhecimento científico, experiência clínica e, muitas vezes, algo que parece simples, mas nem sempre é fácil: saber esperar.
O protagonismo da mulher também é uma recomendação baseada em evidências
Diversos estudos demonstram que mulheres que recebem apoio contínuo durante o trabalho de parto apresentam maior satisfação com a experiência do nascimento, menor necessidade de analgesia farmacológica, menores taxas de parto vaginal assistido e maior probabilidade de parto vaginal espontâneo.
Quando a mulher participa das decisões, sente-se respeitada e recebe informações claras, o nascimento costuma ser vivido com mais segurança e confiança.
Humanizar o parto não significa abrir mão da tecnologia. Significa utilizar a tecnologia quando ela é necessária e proteger a fisiologia quando ela está funcionando bem.
O maior cuidado, às vezes, é não interromper
Existe uma tendência natural de acreditar que cuidar é fazer mais. No parto, muitas vezes, cuidar significa observar com atenção. Respeitar o tempo. Reduzir estímulos desnecessários. Criar um ambiente de confiança. Permitir que o cérebro, os hormônios e o corpo trabalhem em harmonia.
Porque o corpo feminino não precisa ser ensinado a parir. Ele faz isso há milhares de anos. O que ele precisa, na maior parte das vezes, é de condições para funcionar.
E talvez essa seja uma das mais belas lições da obstetrícia baseada em evidências: quando mãe e bebê estão bem, uma das maiores demonstrações de cuidado pode ser justamente saber quando não interferir.
Hemmerson Henrique Magioni, Médico Obstetra, Fundador e Diretor Técnico do Instituto Nascer, Comunidade nascer e Nascer Academy – CRM-MG 34455
Referências
- World Health Organization (WHO). WHO recommendations: Intrapartum care for a positive childbirth experience. Geneva: WHO; 2018.
- World Health Organization (WHO). Care in normal birth: a practical guide. Geneva: WHO.
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Intrapartum care for healthy women and babies (NG235). Atualização mais recente.
- Michel Odent. The Scientification of Love. London: Free Association Books.
- Birth and Breastfeeding.
- Childbirth and the Future of Homo Sapiens.
- Bohren MA, Hofmeyr GJ, Sakala C, Fukuzawa RK, Cuthbert A. Continuous support for women during childbirth. Cochrane Database of Systematic Reviews. Atualização mais recente.
- American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Approaches to Limit Intervention During Labor and Birth. Committee Opinion.
- FIGO (International Federation of Gynecology and Obstetrics). Recomendações sobre assistência ao parto fisiológico.




