Ontem, no Instituto Nascer, uma mulher recebeu seu bebê em uma posição pouco conhecida por grande parte das pessoas, mas que carrega uma história fascinante dentro da obstetrícia moderna: a posição de quatro apoios, também conhecida como posição de Gaskin.
Ela estava apoiada sobre as mãos e os joelhos, com o corpo livre para se movimentar e encontrar a posição que naquele momento parecia fazer sentido para ela.
E talvez o mais bonito dessa história seja justamente lembrar que essa posição não nasceu dentro de um tratado de obstetrícia. Ela nasceu da observação. Nasceu da experiência de mulheres.
E ganhou o nome de uma parteira norte-americana que se tornou uma das figuras mais importantes do movimento contemporâneo de humanização do nascimento: Ina May Gaskin.
Quem é Ina May Gaskin?
Ina May Gaskin nasceu em 1940, nos Estados Unidos. Sua história com a obstetrícia começou de maneira bastante pessoal. Depois de vivenciar, na década de 1960, uma experiência de parto marcada pelo uso de fórceps, Ina May passou a questionar profundamente a maneira como o nascimento era conduzido nos hospitais.
No início dos anos 1970, ela participou, junto com seu marido Stephen Gaskin, de uma grande caravana que atravessou os Estados Unidos. Durante aquela viagem, várias mulheres entraram em trabalho de parto. Ina May, que não era ainda uma parteira profissional, começou a acompanhar esses nascimentos. Foi uma espécie de escola da vida.
Ao final da viagem, o grupo se estabeleceu no Tennessee e criou uma comunidade hippie chamada The Farm. Foi ali que nasceu o Farm Midwifery Center, que se tornaria um dos lugares mais conhecidos da história da assistência extra-hospitalar ao nascimento nos Estados Unidos.
Ina May e outras mulheres passaram a acompanhar partos, inicialmente com formação predominantemente prática, mas também buscando orientação de profissionais médicos experientes em partos domiciliares. Era o início de uma trajetória que mudaria sua própria vida, e influenciaria gerações de parteiras e profissionais de saúde.
Spiritual Midwifery
Em 1975, Ina May Gaskin publicou seu livro mais conhecido: Spiritual Midwifery. O livro reunia histórias de nascimento, experiências de mulheres e conhecimentos relacionados à assistência ao parto.
Foi uma publicação extremamente importante para o ressurgimento da parteira como figura central no cuidado ao nascimento nos Estados Unidos. Mais do que ensinar técnicas, Ina May defendia uma ideia que hoje parece simples, mas que na época era profundamente contracultural: o parto não precisava ser tratado apenas como um evento médico. Ele também era uma experiência humana.
O corpo feminino não deveria ser visto apenas como um conjunto de estruturas anatômicas e mecanismos fisiológicos. A mulher deveria ser vista como protagonista daquele acontecimento. Essa ideia dialoga profundamente com aquilo que hoje chamamos de cuidado humanizado e baseado em evidências.
E de onde veio a posição de Gaskin?
Durante uma viagem à América Central, em 1976, Ina May teve contato com uma maneira tradicional de lidar com situações de dificuldade no nascimento: colocar a mulher sobre as mãos e os joelhos, em quatro apoios.
A posição chamou sua atenção. E ela passou a utilizá-la em sua prática. Com o tempo, essa posição ficou conhecida como manobra de Gaskin, especialmente por sua utilização diante da distocia de ombros (uma emergência obstétrica que ocorre no parto vaginal quando a cabeça do bebê já saiu, mas o ombro anterior fica preso atrás do osso púbico da mãe).
A lógica é interessante. Quando uma mulher está em quatro apoios, seu corpo muda completamente em relação à posição supina. A pelve pode assumir outra configuração, o sacro fica mais livre para se movimentar e o próprio feto pode encontrar novas relações com a pelve materna.
Estudos radiológicos já demonstraram que a mudança da posição supina para posições não supinas pode aumentar algumas dimensões pélvicas, embora a explicação biomecânica exata para o sucesso da manobra de Gaskin ainda não seja completamente estabelecida.
Não é uma “mágica obstétrica”. É biomecânica. É movimento. É mudança da relação entre dois corpos.
O que diz a ciência sobre a posição no parto?
Aqui está uma parte particularmente importante dessa história. A ciência moderna não diz que existe uma única posição “correta” para todas as mulheres. Ao contrário. As recomendações atuais valorizam a liberdade de movimento e a escolha da posição materna.
A Organização Mundial da Saúde recomenda que mulheres sem analgesia peridural sejam encorajadas a adotar a posição de nascimento de sua preferência, incluindo posições verticais. A recomendação também enfatiza que nenhuma posição deve ser imposta à mulher.
Mesmo para mulheres com analgesia peridural, a OMS recomenda que seja oferecida a possibilidade de escolha da posição, sempre que clinicamente possível. Isso é muito importante. Porque a discussão não deveria ser: “Qual é a melhor posição para parir?” Talvez a pergunta mais adequada seja: “Qual é a posição que faz mais sentido para esta mulher, neste momento, neste parto?”
A posição de quatro apoios pode ser confortável para algumas mulheres. Para outras, pode ser incômoda. Algumas preferem ficar de lado. Outras querem ficar de pé. Outras gostam de agachar. Algumas querem sentar. E algumas terminam o parto deitadas. Não existe uma posição universalmente superior.
Existe uma mulher, um bebê, um parto e uma equipe capaz de acompanhar essa fisiologia com segurança.
Uma posição pode ser também uma forma de liberdade
Durante muito tempo, a obstetrícia hospitalar colocou a mulher em uma posição que facilitava principalmente a observação e a intervenção do profissional. A mulher deitada.
O profissional sentado ou de pé à sua frente. O nascimento organizado para que o sistema de assistência tivesse acesso ao corpo materno. Isso teve razões históricas, técnicas e culturais. Mas não significa que essa seja necessariamente a melhor posição para todas as mulheres.
Quando permitimos que uma mulher caminhe, mude de posição, se apoie, se ajoelhe, fique de lado ou fique em quatro apoios, alguma coisa muda. Ela deixa de ser apenas alguém sobre quem o parto acontece. Ela passa a participar ativamente do nascimento. E talvez seja justamente aí que a história da posição de Gaskin encontre a história do parto humanizado.
Ontem, no Instituto Nascer
Ontem não nasceu apenas um bebê. Nasceu também uma pequena lembrança de uma grande transformação na história da obstetrícia. Uma mulher escolheu, ou encontrou, uma posição. Seu corpo se movimentou. Sua pelve se adaptou. Seu bebê nasceu.
E, ao redor dela, uma equipe esteve presente para garantir que aquela liberdade acontecesse dentro de um cuidado seguro. Talvez seja essa uma das grandes lições que Ina May Gaskin deixou para a obstetrícia: não precisamos escolher entre fisiologia e segurança.
Precisamos aprender a cuidar da fisiologia com segurança. Precisamos saber quando observar. Quando esperar. Quando apoiar. Quando mudar de posição. Quando intervir.
E, sobretudo, precisamos lembrar que o parto acontece no corpo da mulher e não no corpo do profissional que o assiste. A posição de Gaskin é apenas uma posição. Mas a história por trás dela é muito maior. É a história de mulheres que recuperaram a possibilidade de se movimentar. De escolher. De participar. De confiar no próprio corpo. E de uma parteira chamada Ina May Gaskin que ajudou o mundo a olhar novamente para aquilo que, de certa forma, as mulheres sempre souberam: durante o nascimento, o corpo também pensa. E muitas vezes ele sabe encontrar a posição que precisa.
Hemmerson Henrique Magioni, Médico Obstetra, Fundador e Diretor Técnico do Instituto Nascer, Comunidade Nascer e Nascer Academy – CRM-MG 34455
Referências e Fontes:
- Gaskin IM. Spiritual Midwifery. Book Publishing Company; 1975.
- World Health Organization. WHO recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience.
- World Health Organization. Recommendations on maternal mobility and birth position, updated guidance.
- Barrowclough JA, et al. Maternal postures for fetal malposition in labour. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2022.
- Gaskin maneuver and contemporary management of shoulder dystocia.
- Ina May Gaskin — National Women’s Hall of Fame.




