“Doutor, eu não vejo sentido em pagar por uma suíte de parto. Prefiro gastar esse dinheiro com a fotógrafa.”
Essa frase, dita recentemente por uma paciente durante uma consulta, me fez pensar sobre uma transformação importante que vem acontecendo na obstetrícia brasileira. E também sobre uma pergunta que merece ser respondida com calma: Por que o ambiente onde uma mulher vai parir importa tanto?
A resposta talvez esteja em uma ideia simples: o parto não acontece apenas dentro do corpo da mulher. Ele também acontece no ambiente ao seu redor.
Durante décadas, a cultura obstétrica brasileira se acostumou com o modelo de pré-parto coletivo: várias mulheres compartilhando o mesmo espaço, pouca privacidade, circulação constante de profissionais, iluminação hospitalar, ruídos, interrupções e uma rotina organizada muito mais de acordo com as necessidades da instituição do que com as necessidades de quem está parindo.
Esse modelo ainda existe em muitos serviços.Mas o nascimento mudou.Ou, pelo menos, estamos aprendendo que ele pode ser cuidado de outra maneira.
O que é uma suíte PPP?
PPP significa pré-parto, parto e pós-parto. É um ambiente individual no qual a mulher pode permanecer durante diferentes fases do trabalho de parto, o nascimento e o período inicial após o parto, sem precisar ser transferida sucessivamente entre diferentes ambientes.
Mais do que simplesmente um quarto bonito, uma boa suíte de parto deve ser pensada para favorecer aquilo que sabemos ser importante durante o trabalho de parto: privacidade, segurança, liberdade de movimento, conforto, presença de acompanhantes, possibilidade de diferentes posições e menor exposição a interrupções desnecessárias.
A ideia é aproximar o ambiente hospitalar de um espaço de cuidado, e não de um ambiente exclusivamente orientado pela lógica hospitalar. E isso não é apenas uma questão estética.
O ambiente interfere no parto?
Provavelmente, sim. Mas é importante fazer uma ressalva científica: não existe evidência de que simplesmente colocar uma mulher em um quarto bonito faça o parto normal acontecer.
Não é a decoração que faz nascer. O que existe é algo mais interessante.
Revisões sistemáticas que avaliaram ambientes hospitalares alternativos, incluindo espaços com características mais semelhantes às de um ambiente doméstico, encontraram associação com menor utilização de intervenções médicas, maior probabilidade de parto vaginal espontâneo e maior satisfação materna, sem aumento aparente de riscos para mãe ou bebê.
Mas os próprios autores alertam para uma limitação importante: nesses estudos, o ambiente geralmente vinha acompanhado de mudanças no modelo de assistência. Portanto, é difícil separar completamente o efeito do quarto do efeito da equipe e da forma de cuidar.
E essa talvez seja justamente a questão. Uma suíte PPP não deve ser entendida como uma arquitetura isolada. Ela faz parte de um modelo de cuidado.
O parto precisa de privacidade
Durante o trabalho de parto, a mulher pode entrar em um estado de concentração muito diferente daquele que experimentamos no cotidiano.
Ela pode precisar de silêncio. Pode querer diminuir as luzes. Pode querer caminhar. Pode querer ficar deitada, sentada, em pé, de cócoras ou apoiada no acompanhante. Pode querer água quente. Pode querer tocar o próprio corpo. Pode vocalizar. Pode não querer conversar. Pode simplesmente precisar que as pessoas ao redor compreendam que aquele momento pertence a ela.
Por isso, privacidade não é um detalhe arquitetônico. É uma dimensão do cuidado.
A Organização Mundial da Saúde colocou a experiência positiva do parto no centro das recomendações contemporâneas para assistência ao nascimento, destacando o cuidado respeitoso, centrado na mulher e compatível com seus direitos, sua dignidade e suas preferências.
Um ambiente que protege a privacidade pode ajudar a tornar isso possível.
Liberdade de movimento também é cuidado
Uma das grandes diferenças entre um pré-parto tradicional e uma boa suíte PPP está na possibilidade de a mulher se movimentar e ocupar o espaço.
O trabalho de parto não precisa acontecer necessariamente em uma cama. A mulher pode caminhar, mudar de posição, utilizar uma bola, apoiar-se no acompanhante, ficar de pé, ajoelhar-se, utilizar o chuveiro ou assumir posições que sejam confortáveis para ela.
As recomendações contemporâneas de assistência ao parto reconhecem a importância de permitir mudanças de posição e métodos não farmacológicos de conforto quando não existem contraindicações clínicas.
Isso parece simples. Mas existe uma diferença enorme entre dizer: “Você pode mudar de posição.” Outra coisa é oferecer um ambiente no qual é fácil mudar de posição.
Arquitetura também pode facilitar ou dificultar comportamentos.
E o acompanhante?
Existe outro elemento fundamental: ninguém deveria viver o nascimento como um evento solitário.
A presença contínua de uma pessoa escolhida pela mulher, seja o companheiro, uma familiar, uma amiga ou uma doula, é valorizada pelas principais recomendações internacionais.
A revisão sistemática Cochrane sobre apoio contínuo durante o trabalho de parto incluiu mais de 15 mil mulheres e encontrou associação com maior probabilidade de parto vaginal espontâneo, menor utilização de analgesia, menor frequência de cesariana e parto instrumental e maior satisfação com a experiência do nascimento.
Não significa que uma suíte de parto seja responsável por esses resultados.
Significa que um ambiente que permite a presença contínua, confortável e ativa das pessoas que apoiam a mulher ajuda a construir um modelo de assistência que tem evidências a seu favor.
Mas e se a suíte PPP for paga?
Essa é uma questão bastante legítima. E aqui precisamos separar duas coisas. O cuidado baseado em evidências não deveria depender de luxo.
Toda mulher deveria receber assistência respeitosa, segura, baseada em evidências, com privacidade, acompanhante e dignidade, independentemente de sua condição econômica.
Uma suíte PPP paga não significa que o parto ali será “melhor” do ponto de vista médico.
O que está sendo cobrado, geralmente, é uma estrutura diferenciada: um quarto individual, maior espaço, banheiro privativo, equipamentos específicos, possibilidade de permanecer no mesmo ambiente durante todo o processo, maior privacidade e outras características físicas e operacionais.
Portanto, pagar pela suíte não é pagar pelo parto normal. É pagar, quando essa é a realidade daquela maternidade, por uma determinada infraestrutura. E cada família precisa decidir se essa infraestrutura faz sentido para ela.
Há quase 15 anos, essa conversa parecia estranha
Quando comecei a acompanhar partos em suítes PPP em Belo Horizonte, esse modelo ainda estava longe de ser uma rotina. No Hospital Mater Dei, por exemplo, fui o primeiro obstetra a acompanhar um parto em uma suíte desse tipo. Naquela época, aquilo não era simplesmente “entrar em um quarto”. Era quase uma negociação. Era preciso adaptar rotinas, convencer profissionais, reorganizar fluxos.
Alguns profissionais não compreendiam por que o parto deveria acontecer naquele ambiente. Havia resistência. O pediatra não estava acostumado. O anestesista não via aquilo como seu ambiente habitual. A enfermagem precisava reorganizar seu trabalho.
E tudo isso é compreensível quando uma instituição está acostumada há décadas a funcionar de determinada maneira. Toda mudança cultural produz resistência.
Mas, aos poucos, aquilo que parecia estranho começou a fazer sentido. Hoje, quase 15 anos depois, as suítes de parto PPP estão muito mais presentes nas maternidades brasileiras. Algumas são oferecidas sem custo adicional. Outras são disponibilizadas mediante pagamento de uma taxa.
E eu fico particularmente feliz de ter participado, junto com o Instituto Nascer, de uma pequena parte dessa transformação em Belo Horizonte. Não porque tenhamos inventado o conceito. Mas porque acreditamos, desde o início, que o lugar onde uma mulher dá à luz também faz parte da forma como cuidamos dela.
Uma suíte bonita não basta
Existe, entretanto, uma última coisa que considero ainda mais importante. Uma suíte PPP não humaniza um parto sozinha. É possível ter uma suíte linda, cara e sofisticada e oferecer uma assistência extremamente intervencionista, autoritária e pouco respeitosa.
Assim como é possível oferecer um cuidado excelente em um ambiente mais simples. O verdadeiro valor de uma suíte PPP aparece quando sua arquitetura está a serviço de uma filosofia de cuidado.
Quando existe uma equipe que respeita a autonomia da mulher. Quando há espaço para o acompanhante. Quando a mulher pode se movimentar. Quando intervenções são indicadas por necessidade clínica, e não simplesmente por rotina. Quando há privacidade. Quando existe escuta. Quando a equipe entende que parto não é apenas um procedimento médico. É um acontecimento fisiológico, psicológico, familiar e profundamente humano.
Hemmerson Henrique Magioni, Médico Obstetra, Fundador e Diretor Técnico do Instituto Nascer, Comunidade Nascer e Nascer Academy – CRM-MG 34455
Referências científicas
- World Health Organization (WHO). WHO recommendations: Intrapartum care for a positive childbirth experience. Geneva: WHO, 2018.
- Bohren MA, Hofmeyr GJ, Sakala C, Fukuzawa RK, Cuthbert A. Continuous support for women during childbirth. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2017;7:CD003766.
- Hodnett ED et al. Alternative versus conventional institutional settings for birth. Cochrane Database of Systematic Reviews. Revisão sistemática com 10 estudos e 11.795 mulheres.
- American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Approaches to Limit Intervention During Labor and Birth. Committee Opinion No. 766. Obstetrics & Gynecology. 2019;133:e164–e173.




