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Instituto Nascer

Paralisia Cerebral versus Parto Normal

Paralisia Cerebral e Parto Normal: será que o parto é realmente o grande vilão?

É muito comum que uma gestante, especialmente quando está se preparando para o nascimento do seu primeiro filho, tenha medo de que alguma coisa aconteça durante o trabalho de parto. E talvez nenhum medo seja tão angustiante quanto este:

“E se meu bebê sofrer falta de oxigênio no parto e tiver paralisia cerebral?”

Essa preocupação é compreensível. Afinal, durante décadas, a paralisia cerebral foi associada, de maneira quase automática, à ideia de “falta de oxigênio no nascimento”. Mas a ciência mudou — e hoje sabemos que essa história é muito mais complexa.

Quanto da paralisia cerebral é causada pela hipóxia intraparto?

A melhor estimativa disponível sugere que menos de 10% dos casos de paralisia cerebral podem ser atribuídos a um evento hipóxico-isquêmico intraparto agudo, quando se exige uma relação causal convincente.

Uma revisão sistemática clássica, mas ainda muito citada, encontrou 14,5% de associação entre hipóxia-isquemia intraparto e paralisia cerebral em recém-nascidos a termo e sem anomalias congênitas. Estudos posteriores e análises mais recentes sugerem que, quando aplicamos critérios mais rigorosos para estabelecer causalidade, a proporção provavelmente fica mais próxima de 5% a 10%.

Isso significa que a grande maioria das crianças com paralisia cerebral não teve sua condição causada por falta de oxigênio durante o trabalho de parto.

E essa é uma informação especialmente importante para quem está grávida e tem medo de que o parto normal possa “machucar o cérebro” do bebê.

Paralisia cerebral não é sinônimo de sofrimento fetal

A paralisia cerebral é um grupo de condições que afetam o movimento, a postura e a coordenação, decorrentes de uma lesão ou alteração no cérebro em desenvolvimento.

E esse cérebro pode ser afetado em diferentes momentos: durante a gestação, no período próximo ao nascimento ou, mais raramente, depois do nascimento.

A própria NICE (National Institute for Health and Care Excellence) reconhece como fatores associados à paralisia cerebral situações como prematuridade, baixo peso ao nascer, infecções maternas e neonatais, corioamnionite, encefalopatia neonatal e meningite, entre outras. Ou seja: não existe uma única causa para a paralisia cerebral. E, principalmente, o parto não é o principal responsável pela maioria dos casos.

Mas e a falta de oxigênio durante o parto?

Sim, a hipóxia-isquemia pode causar uma lesão cerebral. Um evento hipóxico-isquêmico grave e prolongado, próximo ao nascimento, pode levar à encefalopatia hipóxico-isquêmica e, em alguns casos, resultar em sequelas neurológicas, inclusive paralisia cerebral.

Mas existe uma diferença enorme entre reconhecer que isso pode acontecer e acreditar que essa seja a explicação para a maioria das paralisias cerebrais. Não é.

A ACOG (American College of Obstetricians and Gynecologists) destaca que existem múltiplos caminhos capazes de produzir lesão cerebral e que é inadequado atribuir automaticamente um diagnóstico de paralisia cerebral a um evento ocorrido durante o trabalho de parto.

Além disso, mesmo quando existe uma alteração da frequência cardíaca fetal, isso não significa necessariamente que o cérebro do bebê esteja sofrendo uma lesão hipóxica.

“Sofrimento fetal” não é sinônimo de lesão cerebral.

E expressões antigas como “bebê sofreu no parto” ou “faltou oxigênio” são frequentemente insuficientes para explicar o que realmente aconteceu.

Então por que ouvimos tanto falar em sofrimento fetal?

Porque o monitoramento do bebê durante o trabalho de parto existe justamente para identificar sinais de possível comprometimento fetal e permitir que a equipe aja quando necessário.

Alterações da frequência cardíaca fetal podem indicar que o bebê está enfrentando alguma dificuldade para tolerar o trabalho de parto. Isso merece atenção. Mas um traçado alterado é um sinal clínico, não um diagnóstico de lesão cerebral.

A avaliação precisa considerar o conjunto da situação: evolução do trabalho de parto, padrão da frequência cardíaca fetal, condições maternas, evolução neonatal, gases do cordão umbilical quando indicados, necessidade de reanimação e, quando existe encefalopatia neonatal, outros dados clínicos e exames complementares.

É por isso que a medicina moderna abandonou a ideia simplista de que qualquer alteração da frequência cardíaca fetal representa “falta de oxigênio no cérebro”.

E a paralisia cerebral?

Quando estudamos crianças com paralisia cerebral, encontramos diferentes padrões de lesão cerebral. Podem existir alterações da substância branca, lesões dos núcleos da base, malformações congênitas, infartos focais e outros padrões de lesão.

Esses diferentes padrões apontam para diferentes mecanismos de lesão. A prematuridade é um dos exemplos mais importantes. Quanto menor a idade gestacional ao nascimento, maior o risco de determinadas lesões cerebrais relacionadas à imaturidade do cérebro e da substância branca. A prematuridade é reconhecida como um dos principais fatores associados à paralisia cerebral.

Infecções e inflamações também podem desempenhar um papel importante. A corioamnionite, por exemplo, está associada a maior risco de paralisia cerebral, especialmente em populações de prematuros. A inflamação pode afetar diretamente o cérebro em desenvolvimento e também torná-lo mais vulnerável a outros insultos.

E existe ainda uma dimensão que durante muito tempo foi subestimada: a genética.

Estudos mais recentes mostram que alterações genéticas podem explicar uma parcela relevante dos casos de paralisia cerebral. Uma revisão sistemática com metanálise envolvendo 2.612 pessoas encontrou um rendimento diagnóstico de aproximadamente 31% para variantes genéticas patogênicas ou provavelmente patogênicas quando foi realizado sequenciamento do exoma.

Isso não significa que “31% das paralisias cerebrais sejam genéticas” de maneira simples. Significa que, entre os pacientes investigados nos estudos, uma proporção significativa apresentou uma alteração genética potencialmente explicativa.

É uma descoberta que está mudando profundamente a maneira como entendemos a origem da paralisia cerebral.

E o parto normal?

Aqui está uma informação que toda gestante merece ouvir: o parto normal não é, por si só, um fator causador de paralisia cerebral.

O objetivo da assistência obstétrica não é evitar o trabalho de parto para “proteger o cérebro do bebê”. O objetivo é acompanhar mãe e bebê com segurança, reconhecer situações de risco e intervir quando realmente necessário.

Isso vale para qualquer nascimento — vaginal ou cesariana. Uma cesariana realizada sem indicação clínica não é uma garantia contra paralisia cerebral. Da mesma forma, um parto vaginal acompanhado adequadamente não significa colocar o bebê em risco de lesão cerebral.

O nascimento é um processo fisiológico, mas isso não significa que seja um processo sem vigilância. A boa assistência ao parto combina fisiologia, observação, monitoramento adequado, conhecimento científico e capacidade de intervenção quando necessária.

“Mas eu conheço muitas crianças com paralisia cerebral que tiveram sofrimento no parto…”

Essa percepção é especialmente compreensível para profissionais que trabalham em instituições como a APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais).

Mas existe aqui um fenômeno importante chamado viés de seleção. Imagine uma pessoa que trabalha diariamente em uma instituição dedicada ao cuidado de crianças com deficiência.

Ela naturalmente verá muitas crianças com paralisia cerebral. E algumas delas realmente terão história de encefalopatia neonatal ou de um evento hipóxico-isquêmico.

Isso pode criar a impressão de que: “A maioria das crianças com paralisia cerebral teve falta de oxigênio no parto.” Mas essa observação não representa a população geral.

É como trabalhar em uma unidade de cardiologia e concluir que a maioria das pessoas tem doença cardíaca porque todos os pacientes que chegam até você têm doença cardíaca. O ambiente de trabalho modifica aquilo que enxergamos.

Por isso, quando queremos descobrir quais são realmente as causas de uma doença, precisamos olhar para estudos populacionais e para a melhor evidência científica disponível — e não apenas para aquilo que vemos na nossa prática cotidiana.

E quando realmente existe hipóxia durante o parto?

Quando há um evento hipóxico-isquêmico verdadeiro e significativo, ele pode, sim, causar lesão cerebral.

Por isso a assistência obstétrica de qualidade é tão importante. O acompanhamento do trabalho de parto permite reconhecer alterações progressivas, avaliar o contexto clínico e, quando necessário, acelerar o nascimento.

Mas é importante compreender que nem todo bebê que apresenta alterações transitórias da frequência cardíaca fetal está sofrendo uma lesão cerebral, assim como nem toda criança que posteriormente apresenta paralisia cerebral teve necessariamente um evento hipóxico durante o parto.

A própria ACOG (American College of Obstetricians and Gynecologist) alerta que um Apgar baixo, isoladamente, não é suficiente para estabelecer asfixia ou causalidade intraparto. Da mesma maneira, o diagnóstico de uma lesão hipóxico-isquêmica exige a integração de diferentes informações clínicas e laboratoriais.

O que uma gestante deve levar dessa conversa?

Talvez a mensagem mais importante seja esta: não tenha medo do parto normal por acreditar que ele é a principal causa de paralisia cerebral. A ciência não sustenta essa ideia.

A paralisia cerebral possui múltiplos mecanismos e pode estar relacionada a acontecimentos que ocorreram muito antes do início do trabalho de parto.

Prematuridade, alterações do desenvolvimento cerebral, fatores genéticos, infecções e inflamações, alterações vasculares, restrição do crescimento fetal e outras condições podem participar desse processo.

A hipóxia-isquemia perinatal é uma das possibilidades — mas não é sinônimo de parto normal e não explica a maioria dos casos. E talvez seja justamente por isso que uma das melhores formas de proteger mãe e bebê seja não escolher entre “parto natural” e “medicina”.

É possível — e necessário — ter os dois. Respeitar a fisiologia do nascimento e, ao mesmo tempo, estar preparado para reconhecer quando a fisiologia deixa de ser suficiente.

Porque parto humanizado não significa parto sem vigilância. Significa cuidar. Cuidar da mulher. Cuidar do bebê. Respeitar o processo fisiológico. E ter conhecimento científico e competência técnica para intervir quando realmente for necessário.

Hemmerson Henrique Magioni, Médico Obstetra, Fundador e Diretor Técnico do Instituto Nascer, Comunidade Nascer e Nascer Academy – CRM-MG 34455.

Referências e fontes

  • Graham EM, Ruis KA, Hartman AL, et al. A systematic review of the role of intrapartum hypoxia-ischemia in the causation of neonatal encephalopathy. Am J Obstet Gynecol. 2008;199(6):587-595.
  • American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Neonatal Encephalopathy and Neurologic Outcome. Second Edition. Obstet Gynecol. 2014;123(4):896-901.
  • National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Cerebral palsy in under 25s: assessment and management. NICE Guideline NG62.
  • Gonzalez-Mantilla PJ, Hu Y, Myers SM, et al. Diagnostic Yield of Exome Sequencing in Cerebral Palsy and Implications for Genetic Testing Guidelines: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Pediatr. 2023;177(5):472-478.
  • American Academy of Pediatrics. Neonatal Encephalopathy and Neurologic Outcome, Second Edition. Pediatrics. 2014;133(5).

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