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Instituto Nascer

Momento de ir pra maternidade

Antes de ligar para alguém, escute a si mesma: o início do trabalho de parto!

Aprender a reconhecer os sinais do próprio corpo não significa atravessar o nascimento sozinha. Significa compreender que a mulher também é parte fundamental do cuidado que recebe.

Quando uma mulher chega ao final da gestação e começa a perceber sensações diferentes, uma pergunta costuma surgir quase imediatamente: para quem devo ligar?

Para o obstetra? Para a enfermeira obstetra? Para a doula? Para o companheiro ou companheira?

Todas essas perguntas fazem sentido. Afinal, a proximidade do nascimento pode trazer dúvidas, expectativas e uma necessidade legítima de acolhimento. Ter uma rede de apoio preparada para orientar, cuidar e oferecer segurança é fundamental.

Mas, no acompanhamento das gestantes, costumo propor uma pergunta anterior a todas essas: e se a primeira pessoa com quem você conversasse nesse momento fosse com você mesma?

A proposta pode parecer contraintuitiva. Estamos acostumados a procurar respostas fora de nós, especialmente quando nos deparamos com algo novo, intenso ou desconhecido. No contexto do parto, porém, essa tendência merece uma reflexão.

Muitas mulheres chegam ao final da gestação acreditando que precisarão de alguém para dizer o que estão sentindo, identificar o que está acontecendo e determinar qual deve ser o próximo passo. Como se o próprio corpo fosse um território desconhecido, cuja interpretação pertencesse exclusivamente aos profissionais de saúde.

É justamente aí que começa uma conversa importante sobre autonomia, confiança e protagonismo feminino no nascimento.

Aprender a escutar o próprio corpo

Durante a gestação, o corpo da mulher passa por transformações profundas. Ao longo de semanas e meses, ela experimenta novas sensações, percebe mudanças no ritmo cotidiano e aprende, gradualmente, a reconhecer as particularidades daquela experiência.

Ainda assim, quando o nascimento se aproxima, é comum que a atenção se volte quase exclusivamente para uma pergunta: será que estou entrando em trabalho de parto?

A dúvida é compreensível, sobretudo na primeira gestação. Nem sempre é fácil distinguir as contrações preparatórias daquelas associadas ao trabalho de parto. As sensações podem variar de uma mulher para outra, e o início do processo nem sempre acontece da maneira que imaginamos.

Entretanto, reconhecer essa incerteza não significa que a mulher seja incapaz de participar da compreensão do que está acontecendo.

Significa que ela precisa de informação, tempo para observar quando isso for seguro e profissionais disponíveis para orientá-la.

Por isso, quando uma gestante percebe as primeiras mudanças, proponho que, antes de pensar imediatamente em quem deve procurar, ela se permita uma breve pausa, desde que não existam sinais de alerta.

Respirar. Perceber as sensações. Observar como o corpo responde.

As contrações aparecem e desaparecem? Estão se tornando mais regulares, intensas ou próximas umas das outras? O bebê está se movimentando como de costume? Existe alguma mudança que mereça atenção?

Essas perguntas não têm a finalidade de fazer com que a mulher estabeleça sozinha um diagnóstico. Sua função é ajudá-la a desenvolver uma relação mais consciente com o próprio corpo e a comunicar melhor aquilo que está sentindo.

A autonomia começa quando a mulher deixa de ser apenas alguém a quem as informações são transmitidas e passa a participar ativamente da compreensão da própria experiência.

Uma cultura que nem sempre ensina a mulher a confiar em si mesma

A dificuldade de reconhecer os próprios sinais não pode ser atribuída simplesmente à falta de informação individual. Ela também precisa ser compreendida dentro de um contexto cultural e assistencial.

No Brasil, a experiência do nascimento é frequentemente marcada pela centralidade das decisões profissionais e pela valorização de intervenções médicas, em um cenário no qual a cesariana ocupa um espaço expressivo na assistência obstétrica.

Esse contexto é complexo e não se explica por um único fator. Envolve aspectos institucionais, culturais, econômicos e assistenciais, além das experiências pessoais de cada mulher.

Ainda assim, existe uma questão que merece nossa atenção: que lugar estamos oferecendo à mulher nas decisões relacionadas ao seu próprio parto?

Quando uma gestante recebe informações de maneira fragmentada, não encontra espaço para expressar suas dúvidas ou é levada a acreditar que apenas o profissional consegue interpretar o que acontece com seu corpo, pode desenvolver uma relação de dependência em relação às decisões externas.

Não se trata de responsabilizar as mulheres por essa condição. Tampouco de sugerir que a experiência individual substitua o conhecimento técnico.

Trata-se de reconhecer que o cuidado obstétrico também tem a responsabilidade de construir confiança.

Informar não é apenas transmitir orientações. É ajudar a mulher a compreender o que está acontecendo, reconhecer situações que exigem atenção e saber quando e como procurar ajuda.

No pré-natal, essa construção começa muito antes das primeiras contrações.

A primeira etapa de uma escada de apoio

No acompanhamento das gestantes no Instituto Nascer, gosto de utilizar a imagem de uma escada gradual de apoio para conversar sobre o início do trabalho de parto.

A metáfora ajuda a organizar as possibilidades de contato com a rede de cuidado, sem transformar esse processo em uma sequência rígida de etapas que todas as mulheres precisem cumprir.

O primeiro degrau é a própria mulher: sua percepção, suas sensações e sua capacidade de observar o que está acontecendo.

O segundo envolve quem está ao seu lado. O companheiro, a companheira ou outra pessoa de confiança pode ajudar a perceber mudanças de comportamento, oferecer acolhimento e dividir as dúvidas daquele momento.

O terceiro degrau pode ser uma conversa com a doula, por telefone ou mensagem, para compartilhar as sensações e receber o apoio previsto no acompanhamento.

Em seguida, a enfermeira obstetra pode participar da avaliação, inclusive com uma visita domiciliar quando isso fizer parte da organização assistencial e houver indicação.

O obstetra também deve ser acionado conforme as orientações estabelecidas para aquela gestação e a situação clínica apresentada.

E, quando for o momento de procurar a maternidade, a mulher deve fazê-lo com a segurança de que está recorrendo ao lugar adequado para receber avaliação e assistência.

Essa escada não estabelece uma ordem obrigatória de contatos. Dependendo da situação, a primeira ligação poderá ser para o obstetra, a enfermeira obstetra ou o serviço de urgência. Em outras circunstâncias, conversar com a doula ou com alguém próximo poderá ajudar a organizar os próximos passos.

O mais importante é compreender que a rede de apoio existe para oferecer segurança, e não para retirar da mulher sua participação no processo.

O primeiro degrau não é uma pessoa externa. É a possibilidade de reconhecer a si mesma como parte ativa do próprio cuidado.

Autonomia não significa fazer tudo sozinha

É importante esclarecer esse ponto, porque falar em protagonismo pode gerar uma interpretação equivocada.

Defender a autonomia da mulher não significa transferir para ela a responsabilidade de identificar todas as situações clínicas, decidir sozinha quando precisa de atendimento ou suportar a insegurança sem procurar ajuda.

Uma mulher não precisa ter certeza de que está em trabalho de parto para entrar em contato com sua equipe. Não precisa esperar que as contrações se tornem intensas, regulares ou frequentes para pedir orientação.

E não deve ser incentivada a permanecer em casa tentando interpretar os sinais quando há suspeita de uma situação que exige avaliação.

A perda de líquido, o sangramento vaginal, a diminuição dos movimentos do bebê e outros sinais de alerta exigem atenção imediata e orientação profissional. Diante de qualquer um deles, a mulher deve seguir as recomendações recebidas para sua gestação e procurar avaliação sem esperar que outros sintomas apareçam.

O mesmo vale para qualquer preocupação importante ou mudança inesperada.

A observação do próprio corpo é uma ferramenta de consciência, não um teste que a mulher precisa passar antes de receber assistência.

Por isso, a pergunta que proponho não é: “Será que consigo descobrir sozinha se estou em trabalho de parto?”.

A pergunta é outra: “Consigo perceber o que estou sentindo, reconhecer minhas dúvidas e buscar a ajuda adequada sem deixar de participar ativamente desse processo?”.

Essa diferença é fundamental.

A autonomia não se opõe ao cuidado profissional. Ela se fortalece quando existe uma equipe capaz de acolher, orientar, explicar e tomar decisões compartilhadas sempre que possível.

Antes de perguntar a quem ligar, permita-se escutar

Voltemos à pergunta inicial.

Quando você estiver no final da gestação e começar a perceber sinais que possam indicar o início do trabalho de parto, pense na sua rede de apoio. Saiba a quem recorrer, conheça as orientações da sua equipe e tenha clareza sobre as situações que exigem avaliação imediata.

Mas, quando for seguro fazer essa pausa, permita-se também olhar para si mesma.

Respire. Observe. Reconheça suas sensações. Perceba o que mudou.

Não para substituir a avaliação profissional, mas para participar dela de maneira mais consciente.

Você não precisa saber todas as respostas. Não precisa ter certeza do que está acontecendo. E não precisa esperar para procurar ajuda quando sentir que algo não está bem.

Precisa, isso sim, saber que sua percepção importa e que você tem o direito de compreender o próprio cuidado.

Talvez essa seja uma das contribuições mais importantes que podemos oferecer às mulheres durante o pré-natal: não apenas ensinar a reconhecer os sinais do trabalho de parto, mas ajudá-las a desenvolver confiança para participar ativamente da experiência que estão prestes a viver.

Porque o protagonismo não é uma tarefa que começa no nascimento.

É uma construção que começa antes, quando a mulher descobre que sua voz tem lugar, suas sensações merecem atenção e seu corpo não precisa ser um território estranho para ela mesma. E, às vezes, o primeiro passo para chegar à maternidade é aprender a escutar a si mesma.

Hemmerson Henrique Magioni, Médico Obstetra, Fundador e Diretor Técnico do Instituto Nascer, Comunidade Nascer e Nascer Academy – CRM-MG 34455.

Referências e leituras recomendadas

1. AMERICAN COLLEGE OF OBSTETRICIANS AND GYNECOLOGISTS (ACOG). How to Tell When Labor Begins. Orientações sobre o reconhecimento dos sinais do trabalho de parto, a diferenciação entre contrações e o momento de procurar assistência.

2. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). WHO recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience. Geneva: WHO, 2018. Diretriz que aborda o cuidado centrado na mulher, o respeito às suas escolhas, a comunicação efetiva e a promoção de uma experiência positiva de parto.

3. NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE (NICE). Intrapartum care. Guideline NG235. Recomendações sobre educação pré-natal, reconhecimento do trabalho de parto, comunicação com a equipe, decisões compartilhadas e assistência respeitosa.

4. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Assistência ao Parto Normal — Diretriz Nacional. Documento de referência para a assistência ao parto normal no contexto brasileiro.

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