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O resgate do acompanhante no parto!

Historicamente, a experiência de dar à luz era compartilhada somente entre as mulheres e agregava inúmeros significados culturais, possibilitando-lhes apenas conversar livremente sobre o assunto, identificando-se umas com as outras em suas experiências e preocupações. O parto acontecia fisiologicamente, no domicílio da mulher, que era acompanhada pela família e cuidada pela parteira, que além de prestar assistência ao parto, também fornecia apoio físico e conforto emocional.

Esse cenário foi evidenciado, na Europa, até o século XVII e, no Brasil, a assistência ao parto permaneceu nas mãos das parteiras durante todo o século XIX. No entanto, no início do século XX, mais expressivamente após a Segunda Guerra Mundial, em nome da redução das elevadas taxas de mortalidade materna e infantil, as mulheres-mães, começaram a introjetar a necessidade da medicina e da crescente tecnologia para assegurar um bom desfecho do nascimento.

A consolidação da hegemonia médica veio acompanhada pela institucionalização do parto e pela introdução de uma série de práticas com a finalidade de intervir, monitorar e controlar a gravidez e o nascimento. O domínio de técnicas ampliou as possibilidades de intervenção, abrindo caminho para a inclusão de normas e procedimentos realizados rotineiramente, planejados para atender às necessidades dos profissionais de saúde, e não das parturientes.

O corpo da mulher transformou-se em propriedade médica e institucional e o parto tornou-se essencialmente problemático, seguindo um modelo assistencial caracterizado pelo uso exagerado da tecnologia, pelo intervencionismo e pela impessoalidade. O acompanhamento durante o parto, realizado antigamente pelos familiares ou pela parteira com a finalidade de fornecer apoio emocional e suporte psicológico, foi classificado pela obstetrícia como indesejado e, consequentemente, eliminado.

As mulheres, quando admitidas no ambiente hospitalar, além do risco de sofrer intervenções desnecessárias e arriscadas, permanecem isoladas nas salas de pré-parto ou de parto, longe de alguém conhecido ou de sua confiança, cercadas por equipamentos técnicos e assistidas por profissionais de saúde frequentemente desconhecidos e quase sem nenhum tipo de apoio emocional.

No final do século XX, o descontentamento das mulheres em razão da apropriação do corpo feminino pela obstetrícia estimulou mundialmente a luta do movimento feminista, que deu início ao movimento em prol da humanização da assistência ao parto. O objetivo principal desse movimento foi promover o cuidado à saúde da mulher, centralizado nas necessidades de cada uma e fundamentado em evidências científicas para garantir à mãe e à criança uma assistência segura, com o mínimo de intervenções.

O movimento das mulheres pelo protagonismo na assistência ao parto impulsionou o interesse da comunidade científica pelo desenvolvimento de pesquisas clínicas para subsidiar o retorno do apoio emocional e psicológico oferecido à parturiente durante o trabalho de parto.

Historicamente, o processo do nascimento transcorria naturalmente, sendo cuidado pela parteira e cercado pela família. A inserção da medicina culminou na “patologização” e na institucionalização do parto, a mulher passou a ser admitida no hospital e o acompanhante foi excluído da prática assistencial. Evidências científicas recentes demonstram que medidas de conforto físico e emocional auxiliam no desencadeamento do parto, diminuindo-lhe a duração e a necessidade de intervenções. Com base nas evidências, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde do Brasil recomendam a presença do acompanhante durante o trabalho de parto, que foi fortalecida em 2005 pela Lei nº 11.108, de 7 de abril de 2005.

Então agora devemos caminhar em direção de um modelo de cuidado onde mantemos as conquistas do modelo humanista, como a autonomia feminina e o parto como um evento social, familiar e afetivo. Mas trazemos também o uso apropriado das tecnologias médicas e a medicina baseada em evidências científicas, buscando, assim, o equilíbrio perfeito entre as três grandes esferas do cuidado ao nascimento: o desejo da mulher, o julgamento clínico dos cuidadores e as evidências científicas.

Hemmerson Magioni, Médico Obstetra e Diretor Técnico do Instituto Nascer – CRM-MG 34455

Foto: Adriana Costa Fotografia

*Fontes: A reflexion on the emotional support during childbirth – Jaqueline de Oliveira SantosI; Camila Arruda TambelliniII; Sonia Maria Junqueira Vasconcellos de Oliveira / Organização Mundial da Saúde – OMS / Minstério da Saúde do Brasil – MS.