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Pandemia não é carta branca para se violar princípios éticos e científicos

Vendedores de sonhos estão travestidos de cientistas salvadores da pátria, fique atento!

Tempos difíceis esses. Se já não bastasse o ineditismo do vírus e da pandemia, agora temos que lidar com os ilusionistas. 

Ontem recebi uma mensagem de um grande amigo me solicitando uma receita de Ivermectina para ele e a esposa. Ele definiu a posologia e o número de comprimidos a serem formulados. Pediu que eu prescrevesse uma quantidade maior para fornecer também aos seus funcionários. Por se tratar de um lombrigueiro, mal faria apenas para as lombrigas.

Por se tratar de uma daquelas pessoas pelas quais você tem o maior apreço, carinho e respeito, como dizer não?! Dizendo não! Exatamente por todo apreço que lhe tenho, não posso colocá-lo em risco e àqueles pelos quais você ama e quer tão bem. 

Consciência e juramento hipocrático podem contrariar um amigo, mas prefiro contraria-lo do que perdê-lo definitivamente para o barqueiro, em função dos efeitos colaterais de uma droga.

É comum em nossa prática médica este tipo de situação, que vez por outra, nos constrange ao extremo. Quanto mais próximas são as relações, mais frequentes são as solicitações. É o seu sobrinho querido, que lhe pede uma receita para a namorada do irmão do amigo da tia da avó do vizinho dele. Um simples Rivotril! Não custa nada!

Sim, custa! Custa muito! Pode me custar o CRM pelo qual lutei boa parte da minha vida. Porém, mais caro do que isto, é a consciência do prescritor.

Não faz muito tempo, que as famílias tradicionais faziam questão de ter um filho médico e um padre como forma de garantia e segurança na perenidade e na eternidade.

Colegas dermatologistas já me confessaram terem sido forçados a ver manchinhas na avó da namorada em banheiro de salão de festas. Claro, por uma namorada nova, dependendo da situação, até valeria o sacrifício e constrangimento. Fico imaginando os proctologistas com a hemorroida do sogro… 

Bem antes desta epidemia, já existiam estudos que mostravam que os infectologistas, depois dos dermatologistas, eram os especialistas mais submetidos a consultas informais pelos seus próprios colegas. A famosa consulta de corredor, atualmente substituída pelo WhatsApp. Com a chegada do corona, superamos de longe os dermatologistas.

Nesta epidemia, Hipócrates tem sido confundido com hipócrita!

Não faltam vendedores de sonhos para uma população desesperada e havida por um milagre da ciência que lhe restaure o paraíso perdido. Mesmo que o paraíso seja poluído, corrido, corrupto, repleto de esgoto correndo pela calçada e com bala perdida por todo lado.

Neste contexto, os vendedores de sonhos travestidos e maquiados de cientistas e salvadores da Pátria Amada Brasil, aparecem com a solução perfeita tirada da cartola da pseudociência.

Interessante, a cada hora é um coelho diferente. De vez em quando, o coelho cataléptico ressurge das cinzas com uma nova roupagem e missão. Tudo bem se o coelho fosse inócuo. Mas, não é!

O coelho mata de várias maneiras. Mata pelos seus efeitos colaterais diretos, pela falsa ilusão de segurança e pelo desvio das medidas reais de proteção das pessoas.

Ao exalar a cortina de fumaça, os ilusionistas atropelam os princípios básicos que norteiam as condutas médicas e exaltam o xamanismo.

Pandemia não é carta branca para se violar princípios éticos e científicos!

O problema mais sério do momento que vivemos no Brasil é que o ilusionismo é oficial. Promovendo tratamentos que se mostraram ineficazes, ou ainda em estudos clínicos, o governo e seus fiéis seguidores, expõem a população ao vírus como se o problema tivesse sido resolvido.

Além de terapêuticas fakes que desaparecem das prateleiras das farmácias do dia para noite, acena-se com vacinas em desenvolvimento como se elas já estivessem prontas e disponíveis para adentrar no músculo deltoide de cada cidadão deste planeta.

Com isto, banaliza-se o conhecimento científico e a segurança com que estes fármacos são produzidos, abrindo espaço para os terraplanistas e anti-vacinólogos espalharem suas teorias.

Já não sabendo mais em quem confiar, vale o cada um por si!

Neste contexto, meu amigo, vou lhe contrariar. Não lhe darei a receita deste medicamento, originalmente utilizado em bovinos e equinos, cuja dose e eficácia para tratar COVID-19, jamais foi definida para humanos. Eu correria o risco de lhe dar uma dose cavalar e perder a oportunidade de abraçá-lo novamente. Pelo apreço que lhe tenho, peço-lhe encarecidamente que fique em casa, saia somente com máscara para o absolutamente necessário. Fuja de qualquer aglomeração, particularmente daquelas frequentadas pelos ilusionistas de plantão do planalto central.

Tempos difíceis passam, mas demora né?!

Dr. Carlos Ernesto Ferreira Starling , Médico Infectologista e Diretor Técnico do Espaço VACINE-SE do Instituto Nascer.

Médico, infectologista e especialista em medicina preventiva e social pela UFMG. Mestre em medicina., possui curso de especialização em epidemiologia hospitalar pela Universidade de Freiburg Alemanha e Society of America e CDC (Centers for Disease Control) de Atlanta dos Estados Unidos e Harvard Medical School. Carlos Starling tem sido um dos pesquisadores de maior destaque no cenário científico internacional pelos seus inúmeros trabalhos e publicações sobre a epidemiologia e o controle das infecções hospitalares. 

*Fonte Portal Jornal Estado de Minas – Publicado em 04/07/20