A trombofilia é uma condição em que a mulher tem maior tendência a formar coágulos sanguíneos (tromboses). Durante a gravidez, esse risco naturalmente já aumenta, porque o corpo da gestante sofre alterações fisiológicas que tornam o sangue mais “pronto para coagular” – uma proteção da natureza contra sangramentos no parto. Quando somamos a trombofilia, esse risco pode ficar ainda maior.
Diante disso, muitas mulheres se perguntam: “Se tenho trombofilia, devo fazer cesariana?”
O que dizem as evidências científicas
A resposta é clara: a presença de trombofilia, por si só, não é indicação de cesariana.
As principais diretrizes internacionais – como o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), o Royal College of Obstetricians and Gynaecologists (RCOG) e o National Institute for Health and Care Excellence (NICE) – são unânimes: a via de parto deve ser definida por critérios obstétricos, e não pela trombofilia.
Isso porque, ao contrário do que muitas vezes se acredita, a cesariana aumenta ainda mais o risco de trombose. Estudos mostram que, em comparação com o parto normal, a cesariana triplica ou quadruplica esse risco. Portanto, escolher a cesariana como forma de “proteger” uma mulher com trombofilia pode, na verdade, trazer mais perigos do que benefícios.
A importância do planejamento
O ponto mais importante para a mulher com trombofilia é o planejamento do parto, especialmente em relação ao uso de anticoagulantes (como a enoxaparina).
- Se a gestante usou anticoagulante nas últimas 12 horas, não pode receber anestesia peridural ou raquianestesia com segurança.
- Nesse intervalo, se entrar em trabalho de parto, pode ter um parto normal sem bloqueio anestésico.
- Mas, se for necessária uma cesariana nesse período, a única opção anestésica seria a anestesia geral, que é mais complexa, mais arriscada e ainda impede a mulher de estar consciente no nascimento do bebê.
Por isso, em alguns casos, pode ser necessário programar o parto ou induzi-lo. Esse cuidado permite ajustar a medicação e garantir que a gestante tenha acesso às opções seguras de analgesia e anestesia.
Quando a cesariana é indicada
A cesariana pode ser necessária, sim, mas não por causa da trombofilia. Indicações reais incluem situações como sofrimento fetal, placenta prévia, desproporção pélvico-fetal, entre outras razões obstétricas.
Ou seja, a trombofilia não define a via de parto. O que define são as condições clínicas da gestante e do bebê no momento do nascimento.
Conclusão
Mulheres com trombofilia podem ter parto normal com segurança, desde que bem acompanhadas e com um plano individualizado de cuidado. A cesariana deve ser reservada apenas para situações médicas específicas, e não usada de forma rotineira por causa do diagnóstico de trombofilia.
No Instituto Nascer, acreditamos que informação baseada em evidências salva vidas e ajuda as mulheres a tomarem decisões conscientes. Por isso, se você tem trombofilia, converse com sua equipe de saúde, planeje seu parto e saiba que o protagonismo dessa escolha é seu.
Hemmerson Henrique Magioni, Médico Obstetra e Diretor Técnico do Instituto Nascer – CRM-MG 3445
Referências científicas
- ACOG Practice Bulletin No. 197: Inherited Thrombophilias in Pregnancy. Obstet Gynecol. 2018.
- RCOG Green-top Guideline No. 37a (2015, revalidated 2020): Reducing the Risk of Venous Thromboembolism during Pregnancy and the Puerperium.
- RCOG Green-top Guideline No. 37b (2015, revalidated 2020): Thromboembolic Disease in Pregnancy and the Puerperium.
- NICE Guideline NG89 (2018): Venous thromboembolism in over 16s: reducing the risk of hospital-acquired deep vein thrombosis or pulmonary embolism.
- Bates SM, et al. VTE, Thrombophilia, Antithrombotic Therapy, and Pregnancy. CHEST Guideline and Expert Panel Report. Chest. 2016.
- Knight M, et al. Risk of maternal venous thromboembolism by mode of delivery: a systematic review and meta-analysis. BJOG. 2017.