Existe uma frase que repito há muitos anos para minhas pacientes: “O parto do bebê é apenas uma parte da história. Depois dele, começa outro nascimento: o da mãe.”
Talvez seja justamente essa parte que menos conversamos durante o pré-natal. Falamos muito sobre a gestação. Falamos sobre exames, ultrassons, crescimento fetal, alimentação, atividade física, posição do bebê, trabalho de parto, analgesia, parto normal, cesariana, amamentação. Preparamos a mulher para parir.
Mas será que preparamos a mulher para ser mãe? Porque existe uma diferença enorme entre saber que um bebê vai nascer e conseguir imaginar o que significa, de verdade, quando ele finalmente chega.
O nascimento de um bebê também é o nascimento de uma mãe
Quando uma criança nasce, não nasce apenas uma nova pessoa. Nasce uma mãe. E essa mãe não é exatamente a mesma mulher que entrou na maternidade algumas horas antes.
Seu corpo mudou. Seus hormônios mudaram. Seu sono mudou.Sua rotina mudou. Sua relação com o próprio corpo mudou. Sua relação com o parceiro pode mudar. Sua relação com o trabalho pode mudar.
Sua percepção sobre tempo, liberdade, prioridades e até sobre quem ela é pode mudar. É uma transformação profunda, física, emocional, social e, muitas vezes, existencial.
Por isso gosto da expressão “parir a mãe”. Porque, assim como o parto transforma o corpo, a maternidade transforma a identidade. E nenhuma dessas transformações acontece instantaneamente.
“Um luto pela mulher que eu era e uma imensa alegria pela mãe que nasceu”
Recentemente, uma médica do Instituto Nascer, apenas 15 dias depois do nascimento de seu primeiro filho, me escreveu uma frase que ficou comigo: “Um luto pela Lary e uma imensa alegria pela mãe da Celina.”
É uma frase extraordinariamente bonita. E profundamente verdadeira. Porque podemos sentir duas coisas aparentemente contraditórias ao mesmo tempo. Podemos estar completamente apaixonadas pelo nosso bebê e, ainda assim, sentir falta da nossa antiga vida.
Podemos estar felizes e exaustas. Podemos agradecer todos os dias e, em alguns momentos, querer ficar sozinhas.
Podemos amar profundamente a maternidade e sentir saudade de quem éramos antes dela. Uma coisa não invalida a outra. A ambivalência não significa falta de amor. Significa que estamos diante de uma mudança grande demais para ser emocionalmente simples.
O puerpério é um período de enorme adaptação
O chamado “quarto trimestre” não é apenas uma expressão poética.
As primeiras semanas depois do nascimento envolvem uma intensa adaptação fisiológica, emocional e social. A mulher está se recuperando do parto, enfrentando privação de sono, estabelecendo a alimentação do bebê, convivendo com alterações hormonais e, simultaneamente, aprendendo a cuidar de uma pessoa completamente dependente dela.
A ACOG recomenda que o cuidado pós-parto seja compreendido como um processo contínuo, e não como uma única consulta seis semanas depois do parto. Entre os aspectos que devem ser avaliados estão justamente o bem-estar emocional, sono e fadiga, recuperação física, alimentação do bebê, sexualidade e contexto social.
A OMS segue uma direção semelhante ao defender uma experiência pós-natal positiva, baseada não apenas na saúde física, mas também em informação, segurança, apoio e respeito às necessidades da mulher e de sua família.
Ou seja: cuidar do bebê sem cuidar da mãe é cuidar apenas de uma parte da história.
E existe uma particularidade da mulher contemporânea
Talvez essa transição seja especialmente complexa para algumas mulheres. Não porque sejam mais fortes ou mais frágeis. Mas porque algumas construíram uma vida inteira baseada em autonomia, produtividade, independência e controle sobre o próprio tempo.
São médicas. Empresárias. Advogadas. Professoras. Executivas. Pesquisadoras.
Mulheres que administram empresas, tomam decisões, sustentam famílias, cuidam de equipes e passam grande parte do dia fora de casa.
Mulheres acostumadas a resolver problemas. A decidir. A produzir. A correr. A cumprir agendas.
Algumas sequer sabem se segunda-feira, às duas da tarde, bate sol na sala de casa. Porque segunda-feira, às duas da tarde, elas nunca estão em casa. Estão trabalhando.
E então nasce um bebê. De repente, a agenda deixa de ser inteiramente delas. O relógio passa a ser organizado por mamadas, sonecas, choros, fraldas e necessidades que não podem simplesmente ser adiadas para amanhã.
A mulher que passou anos construindo autonomia encontra-se diante de uma situação na qual alguém depende dela para praticamente tudo. Isso pode ser maravilhoso. Mas também pode ser profundamente desorganizador.
Não é preciso romantizar essa transformação
Existe um risco quando falamos sobre maternidade apenas como algo “mágico”. A romantização pode ser tão prejudicial quanto a visão negativa.
Porque, quando dizemos que ser mãe é simplesmente a melhor coisa do mundo, algumas mulheres podem concluir que, se estiverem sofrendo, existe algo errado com elas. Não existe.
A maternidade pode ser uma experiência de enorme amor e, simultaneamente, de enorme cansaço. Pode existir encantamento e irritação. Gratidão e saudade. Realização e medo. Amor e insegurança. Isso faz parte da complexidade humana.
Mas existe um limite importante: nem todo sofrimento emocional no pós-parto deve ser normalizado como “coisa de mãe”.
O “baby blues” não é depressão pós-parto
Nos primeiros dias depois do nascimento, é muito comum ocorrerem alterações emocionais transitórias, frequentemente chamadas de baby blues ou disforia puerperal.
Choro fácil, maior sensibilidade, irritabilidade, ansiedade e sensação de estar emocionalmente sobrecarregada podem aparecer nesse período. Mas esses sintomas costumam ser transitórios.
Quando tristeza, ansiedade, desesperança, perda de interesse, culpa intensa, dificuldade importante de funcionamento ou outros sintomas persistem ou se tornam intensos, precisamos pensar além da adaptação normal do puerpério.
Depressão e transtornos de ansiedade perinatais são condições clínicas reais e tratáveis.
Por isso, a NICE recomenda que a saúde mental seja abordada sistematicamente durante a gestação e o período pós-natal, reconhecendo que depressão e transtornos de ansiedade são relativamente comuns e frequentemente subdiagnosticados.
E isso muda completamente a nossa responsabilidade como profissionais. Não basta perguntar como está o bebê. Precisamos perguntar: “E você? Como você está?”
O pré-natal também deveria preparar para depois do parto
Talvez uma das maiores mudanças que precisamos fazer na assistência obstétrica seja essa: o pós-parto precisa começar a ser cuidado durante o pré-natal.
A própria ACOG recomenda que a orientação antecipatória comece durante a gestação e inclua a transição para a parentalidade, saúde emocional, desafios da recuperação, alimentação do bebê e disponibilidade de apoio.
Precisamos conversar antes do nascimento sobre sono. Sobre rede de apoio. Sobre divisão de tarefas. Sobre amamentação, sem transformar dificuldades em fracasso. Sobre sexualidade.
Sobre relacionamento conjugal. Sobre trabalho. Sobre identidade. Sobre expectativas. Sobre saúde mental. Sobre pedir ajuda. E, principalmente, precisamos dizer para a mulher: “Talvez você não se reconheça completamente nas primeiras semanas. E tudo bem.”
O tempo também é parte do tratamento
Existe algo muito importante que precisamos devolver às mulheres: tempo. Nem tudo precisa ser resolvido nas primeiras semanas. Você não precisa descobrir imediatamente que tipo de mãe será. Não precisa recuperar o corpo imediatamente. Não precisa voltar imediatamente à produtividade anterior. Não precisa ter certeza sobre tudo. Não precisa sentir apenas felicidade.
Você está aprendendo. E seu bebê também está. A família inteira está aprendendo a existir de uma maneira nova.
Com apoio adequado, informação e tempo, muitas dessas coisas vão encontrando seu lugar. Isso não significa esperar passivamente quando existe sofrimento importante. Significa compreender que adaptação também é um processo.
Cuidar da mãe é cuidar do bebê
Talvez essa seja uma das maiores mudanças culturais que precisamos fazer. Durante muito tempo, o pós-parto foi organizado quase exclusivamente em torno do recém-nascido. Pesamos o bebê. Examinamos o bebê. Avaliamos o bebê. Perguntamos sobre o bebê. Orientamos o bebê.
E, algumas vezes, esquecemos de olhar para a mulher que acabou de passar por uma das maiores transformações de sua vida.
A OMS recomenda uma abordagem pós-natal centrada na mulher e no bebê, reconhecendo que a experiência positiva depois do nascimento depende de informação, apoio e cuidado contínuo. A saúde mental também precisa fazer parte dessa assistência.
A OMS recomenda integrar o cuidado em saúde mental aos serviços materno-infantis, criando ambientes nos quais as mulheres possam falar sobre suas dificuldades sem estigma e receber identificação e encaminhamento adequados quando necessário.
Talvez devêssemos perguntar menos “como está o bebê?” e mais “como está a mãe?”
A maternidade não precisa ser vivida em silêncio. Não precisamos transformar toda dificuldade em doença. Mas também não devemos transformar sofrimento significativo em algo que simplesmente “faz parte”.
Precisamos aprender a reconhecer a diferença. E precisamos criar espaço para que a mulher possa dizer:
“Eu amo meu filho, mas estou cansada.”
“Estou feliz, mas estou assustada.”
“Eu queria muito ser mãe, mas sinto falta da minha vida anterior.”
“Estou amando meu bebê, mas ainda estou tentando descobrir quem sou agora.”
E talvez a resposta que ela mais precise ouvir seja simplesmente: “Você não está sozinha.”
Parir a mãe
O nascimento não termina quando o bebê nasce. Na verdade, para a mulher, talvez seja justamente ali que comece uma das maiores travessias de sua vida.
A mulher que existia antes não precisa desaparecer. Ela precisa encontrar espaço dentro da mulher que está nascendo. A profissional. A esposa. A filha. A amiga. A mulher. A mãe. Todas continuam existindo.
Talvez diferentes. Talvez mais cansadas. Talvez mais sensíveis. Talvez mais fortes. Talvez ainda sem saber exatamente quem serão. E tudo bem. Porque maternidade não é uma identidade que se veste pronta no dia do parto. É uma identidade que se constrói.
Dia após dia. Mamadeira ou peito. Choro ou silêncio. Noite mal dormida. Primeiro sorriso. Primeiro banho. Primeiro passeio. Primeiro dia longe do bebê. Primeiro dia de volta ao trabalho. E tantos outros primeiros dias.
Por isso, se você acabou de ter um bebê e sente que está atravessando uma tempestade de emoções, talvez precise ouvir uma coisa que deveria ter sido dita ainda no pré-natal: tenha paciência com você.
Você acabou de nascer também. E, como todo nascimento, esse processo precisa de cuidado. Parir o bebê é um acontecimento. Parir a mãe é uma travessia. E nenhuma mulher deveria atravessá-la sozinha.
Hemmerson Henrique Magioni, Médico Obstetra, Fundador e Diretor Técnico do Instituto Nascer, Comunidade Nascer e Nascer Academy – CRM-MG 34455.
Fontes
- American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Optimizing Postpartum Care. Committee Opinion No. 736. ACOG.
- World Health Organization (WHO). WHO recommendations on maternal and newborn care for a positive postnatal experience. Geneva: WHO, 2022.
- World Health Organization (WHO). Guide for integration of perinatal mental health in maternal and child health services. Geneva: WHO, 2022.
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Antenatal and postnatal mental health: clinical management and service guidance (CG192).
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Postnatal care (NG194).
- Dennis CL, Dowswell T. Psychosocial and psychological interventions for preventing postpartum depression. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2013; CD001134.




