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Bebês Mounjaro: por que mulheres estão engravidando inesperadamente durante o uso da tirzepatida?

Nos últimos meses, um novo termo começou a circular nas redes sociais, consultórios e grupos de gestantes: “Bebês Mounjaro”.

O nome surgiu de forma descontraída para descrever um fenômeno que muitos médicos têm observado na prática clínica: mulheres que acreditavam ter baixa fertilidade ou dificuldade para engravidar e que acabaram descobrindo uma gestação inesperada após iniciar tratamento com medicamentos para perda de peso, como a tirzepatida (Mounjaro®).

Mas afinal, isso é verdade? O medicamento aumenta a fertilidade? Existe algum risco para o bebê? E como evitar uma gravidez não planejada durante o tratamento?

Vamos entender o que a ciência sabe até o momento.

O que é o Mounjaro?

A tirzepatida é um medicamento inicialmente desenvolvido para o tratamento do diabetes tipo 2 e que também demonstrou resultados impressionantes na perda de peso.

Ela atua estimulando receptores dos hormônios GIP e GLP-1, promovendo:

  • Maior sensação de saciedade;
  • Redução do apetite;
  • Retardo do esvaziamento gástrico;
  • Perda significativa de peso corporal;
  • Melhora da resistência à insulina.

Esses benefícios têm transformado a vida de muitas mulheres que convivem com obesidade, sobrepeso e síndrome dos ovários policísticos (SOP).

O Mounjaro aumenta a fertilidade?

A resposta mais correta é: indiretamente, sim.

O medicamento não foi criado para aumentar a fertilidade e não é considerado um tratamento para infertilidade.

No entanto, a perda de peso e a melhora metabólica promovidas pela tirzepatida podem restaurar mecanismos reprodutivos que estavam comprometidos.

Em muitas mulheres com obesidade ou SOP, ocorre:

  • Resistência à insulina;
  • Alterações hormonais;
  • Ciclos menstruais irregulares;
  • Ovulação infrequente ou ausente.

Quando ocorre uma redução importante do peso corporal, esses fatores podem melhorar significativamente.

O resultado é que mulheres que ovulavam raramente podem voltar a ovular regularmente.

E quando a ovulação retorna, a possibilidade de gravidez também aumenta.

A síndrome dos ovários policísticos tem relação com isso?

Sim.

A SOP é uma das causas mais comuns de infertilidade por anovulação.

Diversos estudos mostram que a perda de peso, mesmo que moderada, pode:

  • Melhorar a regularidade menstrual;
  • Reduzir níveis de androgênios;
  • Aumentar as taxas de ovulação espontânea;
  • Melhorar as chances de gravidez.

Como a tirzepatida promove perda de peso significativa, é esperado que parte dessas mulheres volte a apresentar fertilidade espontânea.

Em alguns casos, essa recuperação da fertilidade acontece antes mesmo de a mulher perceber mudanças importantes no ciclo menstrual.

Existe outro motivo para essas gestações inesperadas?

Sim.

A tirzepatida retarda o esvaziamento do estômago.

Por causa desse efeito, pode ocorrer redução temporária da absorção dos anticoncepcionais orais.

Esse fenômeno é mais relevante:

  • Nas primeiras semanas de uso;
  • Após cada aumento de dose.

Por esse motivo, fabricantes e órgãos regulatórios recomendam o uso de um método contraceptivo adicional por um período após o início do tratamento e após cada escalonamento de dose.

Essa é uma informação extremamente importante e ainda pouco conhecida por muitas pacientes.

O que fazer para evitar uma gravidez não planejada?

Toda mulher em idade reprodutiva que inicia tratamento com tirzepatida deve ser orientada sobre contracepção.

Métodos de longa duração costumam ser as opções mais eficazes:

  • DIU de cobre;
  • DIU hormonal;
  • Implante contraceptivo.

Dependendo da situação clínica, métodos de barreira também podem ser recomendados como complemento.

O principal erro é presumir que uma fertilidade reduzida no passado continuará reduzida após a perda de peso.

Nem sempre isso acontece.

E se a mulher desejar engravidar?

Essa é uma situação cada vez mais comum.

Muitas mulheres utilizam a tirzepatida justamente para melhorar sua saúde antes da gestação.

A perda de peso antes da gravidez pode trazer benefícios importantes, incluindo:

  • Menor risco de diabetes gestacional;
  • Menor risco de hipertensão na gravidez;
  • Menor risco de pré-eclâmpsia;
  • Menor risco de cesariana;
  • Menor risco de complicações neonatais.

No entanto, a gestação deve ser planejada.

Como ainda existem dados limitados sobre a segurança da tirzepatida durante a gravidez, as recomendações atuais orientam interromper o medicamento antes da concepção.

A decisão sobre quando suspender deve ser individualizada e discutida com o médico responsável.

E se a mulher engravidar usando Mounjaro?

Essa é provavelmente a dúvida que mais gera ansiedade.

A primeira informação importante é que descobrir uma gestação durante o uso do medicamento não significa que haverá problemas com o bebê.

Até o momento, os dados em humanos ainda são limitados, mas não existe evidência robusta demonstrando aumento importante de malformações congênitas.

Por outro lado, como os estudos disponíveis ainda são insuficientes para garantir segurança plena, a recomendação atual é interromper o medicamento assim que a gravidez for diagnosticada e iniciar acompanhamento obstétrico adequado.

Em geral, o mais importante é não entrar em pânico.

A grande maioria dessas gestações evolui normalmente.

O que podemos aprender com os “Bebês Mounjaro”?

Talvez a principal lição seja que fertilidade e saúde metabólica estão profundamente conectadas.

Quando uma mulher melhora sua resistência à insulina, reduz a inflamação crônica associada à obesidade e recupera a ovulação, sua capacidade reprodutiva também pode melhorar.

Por isso, mulheres que utilizam medicamentos como a tirzepatida devem receber orientação adequada tanto sobre contracepção quanto sobre planejamento reprodutivo.

No Instituto Nascer acreditamos que a informação é uma ferramenta poderosa de cuidado.

Uma gravidez planejada começa muito antes do teste positivo. Ela começa com conhecimento, acompanhamento individualizado e decisões tomadas com base nas melhores evidências científicas disponíveis.

Hemmerson Henrique Magioni, Médico Obstetra, Fundador e Diretor Técnico do Instituto Nascer, Comunidade Nascer e Nascer Academy – CRM-MG 34455

Referências

  • FDA. Tirzepatide Prescribing Information.
  • UpToDate. Obesity in adults: Drug therapy.
  • UpToDate. Treatment of infertility in women with polycystic ovary syndrome.
  • American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Obesity and Pregnancy.
  • American Society for Reproductive Medicine (ASRM). Obesity and Reproduction Committee Opinion.
  • NICE Guideline: Fertility Problems – Assessment and Treatment.
  • Jastreboff AM et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity. SURMOUNT-1 Trial. New England Journal of Medicine.
  • Teede HJ et al. International Evidence-Based Guideline for the Assessment and Management of Polycystic Ovary Syndrome. 2023 Update.

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