Nem todo parto normal é vivido como positivo. E dizer isso não desvaloriza a fisiologia, nem invalida a escolha.
Há mulheres que estudaram, se prepararam, confiaram no próprio corpo, escolheram equipe, planejaram um parto respeitoso, e ainda assim saíram do nascimento com a sensação de que algo foi duro demais, assustador demais ou fora do seu controle.
Às vezes foi um parto vaginal operatório com fórceps ou vácuo extrator. Às vezes uma cesariana não planejada. Às vezes foi “tecnicamente correto”, mas emocionalmente violento.
E aqui está uma verdade que precisa ser dita com clareza: ter escolhido um parto normal não protege automaticamente contra uma experiência traumática.
O que caracteriza um parto como traumático?
A ciência é clara: o trauma não está definido pela via de parto, mas pela experiência subjetiva da mulher.
Um parto pode ser vivido como traumático quando a mulher percebeu:
- medo intenso pela própria vida ou pela do bebê,
- dor fora de controle,
- sensação de impotência ou perda total de autonomia,
- ausência de escuta,
- decisões tomadas sem explicação ou consentimento,
- comunicação fria, brusca ou ameaçadora,
- separação desnecessária do bebê,
- ou intervenções vividas como invasivas.
Do ponto de vista neurobiológico, o trauma ocorre quando o sistema nervoso entra em estado de ameaça extrema, sem possibilidade de regulação.
Parto difícil não é sinônimo de parto mal assistido — mas pode ser
Alguns partos são, de fato, fisiologicamente difíceis:
- trabalhos de parto longos,
- períodos expulsivos extenuantes,
- necessidade de intervenções para preservar segurança materna ou fetal.
Isso faz parte da obstetrícia baseada em evidências.
O problema surge quando, além da dificuldade fisiológica, há:
- comunicação inadequada,
- falta de acolhimento emocional,
- exclusão da mulher das decisões,
- ou banalização do sofrimento.
É a combinação entre estresse intenso e ausência de suporte que aumenta o risco de trauma psicológico.
O impacto psicológico do parto difícil
Estudos mostram que:
- entre 3% e 6% das mulheres podem desenvolver Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) pós-parto;
- uma parcela maior apresenta sintomas subclínicos: ansiedade, hipervigilância, revivências, evitação, tristeza profunda;
- partos percebidos como traumáticos estão associados a:
- dificuldades no vínculo materno-infantil,
- maior risco de depressão pós-parto,
- medo intenso de futuras gestações,
- impacto negativo na sexualidade e autoestima.
E isso independe da via de parto.
Um grande estudo prospectivo Norwegian Mother and Child Cohort relatou que o tipo de parto não foi significativamente associado a uma mudança no sofrimento emocional. O maior preditor de sofrimento emocional pós-parto foi o sofrimento emocional pré-natal. Isso significa que a saúde psicológica (ex: depressão, ansiedade e síndrome do pânico) pré-gestacional ou pré-natal são sinais de alerta e atenção.
“Mas eu quis parto normal… então por que isso me machucou tanto?”
Porque querer fisiologia não significa querer sofrimento. Porque desejar um parto normal não é aceitar qualquer experiência. Porque a expectativa legítima era de cuidado, respeito e segurança.
Muitas mulheres sentem culpa por se sentirem mal depois de um parto vaginal difícil ou de uma cesariana não planejada:
“Não posso reclamar, no fim deu tudo certo.”
“Pior seria se algo tivesse acontecido.”
“Tem gente que passou por coisa pior.”
Essas frases silenciam a dor emocional — e silenciar a dor é um fator de risco para trauma persistente.
O que ajuda a prevenir morbidade psicológica após um parto difícil
A literatura científica aponta estratégias claras:
1. Validar a experiência
Reconhecer que foi difícil, assustador ou doloroso é terapêutico. Minimizar ou racionalizar excessivamente aumenta o risco de cronificação do sofrimento.
2. Elaborar a história do parto
Recontar o parto em ambiente seguro, com escuta empática, ajuda o cérebro a organizar a memória traumática.
Revisar o parto com um profissional capacitado reduz sintomas de TEPT.
3. Entender o que aconteceu
Compreender as indicações das intervenções, o porquê das decisões e o contexto clínico:
- reduz culpa,
- diminui pensamentos ruminativos,
- devolve senso de coerência à experiência.
4. Apoio emocional precoce
A presença de uma rede de apoio, parceiro envolvido e profissionais atentos é fator protetor comprovado.
5. Procurar ajuda quando necessário
Sintomas como:
- revivência constante do parto,
- pesadelos,
- evitação de falar sobre o nascimento,
- ansiedade intensa,
- sensação de desconexão com o bebê não devem ser normalizados.
Psicoterapia com abordagem baseada em trauma é eficaz e indicada.
Escolher parto normal e reconhecer o trauma não são opostos
Uma coisa não anula a outra.
A mulher pode:
- continuar acreditando na fisiologia,
- reconhecer os benefícios do parto normal,
- e, ao mesmo tempo, admitir que aquela experiência foi dura e deixou marcas.
Honrar o trauma não é trair a escolha. É cuidar de si.
Para quem está lendo isso no pós-parto
Se o seu parto foi difícil ou traumático, saiba:
- você não é fraca,
- você não “falhou”,
- você não está exagerando,
- e você não precisa passar por isso sozinha.
O corpo pariu. Agora a mente também precisa de cuidado.
Para finalizar
No Instituto Nascer, defendemos a fisiologia, mas nunca acima da mulher. Um parto só pode ser considerado verdadeiramente humanizado quando:
- o corpo é respeitado,
- a segurança é garantida,
- e a experiência emocional importa.
Porque nascer não é apenas um evento biológico. É um evento que deixa memória, no corpo e no cérebro. E memória também precisa de cuidado.
Hemmerson Henrique Magioni, Médico Obstetra, Fundador e Diretor Técnico do Instituto Nascer, Comunidade Nascer e Nascer Academy – CRM-MG 3445.
Fontes científicas
- World Health Organization (WHO). Intrapartum care for a positive childbirth experience
- NICE. Postnatal care; Antenatal and postnatal mental health
- ACOG. Optimizing postpartum care
- RCOG. Birth afterthoughts and psychological impact of childbirth
- UpToDate®. Posttraumatic stress disorder following childbirth
- Cochrane Library. Psychological interventions for preventing postpartum PTSD
- Grekin R, O’Hara MW. Prevalence and risk factors of postpartum PTSD. J Anxiety Disord




