Muitas mulheres chegam ao parto profundamente preparadas. Estudam fisiologia, fazem cursos, conversam com outras mulheres, escolhem com cuidado a equipe, contratam doula, enfermeira obstetra, planejam o ambiente, escrevem um plano de parto.
Elas desejam um parto normal. Não por romantização. Mas porque entenderam os benefícios fisiológicos, emocionais e simbólicos desse processo. E, ainda assim, às vezes o parto não acontece exatamente como foi imaginado.
Pode ser um parto vaginal assistido com fórceps ou vácuo. Pode ser uma cesariana intraparto, com dilatação avançada, depois de muitas horas de trabalho de parto. Bebê e mãe estão bem. Mas no Brasil, vez ou outra, a mulher sai do hospital carregando algo pesado: o julgamento social sobre a sua escolha.
A frustração nem sempre vem do parto. Vem do entorno.
É impressionante como, em muitos casos, a tristeza não nasce da experiência vivida — mas do que é dito depois:
“Quem mandou escolher parto normal?”
“Não falei que isso era sofrimento?”
“Tá vendo? Acabou em cesárea do mesmo jeito.”
“Da próxima vez você não vai querer parto normal, né?”
Essas frases não são neutras. Elas carregam uma cultura profundamente enraizada de desvalorização da fisiologia, do corpo feminino e da autonomia das mulheres. E, muitas vezes, fazem mais ferida do que o próprio parto.
Planejar um parto normal nunca foi garantia de desfecho. Sempre foi uma escolha de caminho.
Aqui está um ponto fundamental que a ciência confirma e a cultura insiste em ignorar:
Planejar um parto normal não é planejar um tipo de final. É planejar um processo baseado em fisiologia, evidência e cuidado.
Mesmo em contextos ideais, intervenções podem ser necessárias. E quando são indicadas no momento certo, com critério técnico e respeito, elas salvam vidas.
A Organização Mundial da Saúde, o NICE, a ACOG e o RCOG são claros:
- Partos vaginais operatórios (vácuo/fórceps) fazem parte da boa obstetrícia.
- Cesarianas intraparto, quando bem indicadas, não representam falha, mas sim cuidado responsável.
Parto vaginal assistido e cesariana intraparto não são “fracassos”
Um parto vaginal assistido:
- acontece após trabalho de parto estabelecido,
- com dilatação completa,
- com descida fetal,
- quando a intervenção é necessária para proteger mãe e/ou bebê.
Isso é parto vaginal.
Uma cesariana intraparto:
- acontece após o corpo da mulher ter entrado plenamente em trabalho de parto,
- muitas vezes após horas de dilatação, contrações, entrega fisiológica,
- quando seguir adiante não é mais a opção mais segura.
Isso não apaga tudo o que foi vivido antes.
Reduzir essas experiências a “não conseguiu” é uma violência simbólica.
O que define um parto não é a via isolada. É o cuidado.
A ciência contemporânea é clara: desfechos positivos em saúde materna e neonatal estão associados a:
- início espontâneo do trabalho de parto quando possível,
- respeito ao tempo fisiológico,
- uso criterioso de intervenções,
- decisões compartilhadas,
- assistência baseada em evidências.
O sucesso de um parto não se mede apenas pela via, mas pela qualidade do cuidado e pelo respeito à mulher.
Quando a cultura tenta desvalorizar sua vivência
Vivemos em um país campeão mundial de cesarianas, onde:
- o parto normal é frequentemente associado à dor e sofrimento,
- a cesariana é vendida como solução moderna,
- e qualquer intercorrência vira “prova” de que a mulher errou ao tentar.
Nesse contexto, escolher um parto normal já é um ato contracultural. E viver um parto com intervenções, mantendo protagonismo e consciência, continua sendo uma experiência legítima, potente e transformadora.
O que essa mulher precisa ouvir — e não o que costumam dizer
Ela precisa ouvir:
- “Você fez escolhas informadas.”
- “Seu corpo trabalhou.”
- “Você participou ativamente das decisões.”
- “Intervir quando necessário também é cuidado.”
- “Nada do que você viveu foi em vão.”
Porque não foi. Cada contração, cada decisão, cada entrega construiu aquele nascimento.
Para quem deseja um parto normal: vale a pena?
Sim. Vale a pena desejar. Vale a pena estudar. Vale a pena se preparar.
Não porque isso garante um desfecho específico, mas porque muda profundamente a forma como a mulher atravessa o nascimento, qualquer que seja a via final.
Planejar um parto normal é planejar:
- protagonismo,
- consciência,
- respeito,
- cuidado baseado em evidências.
E isso ninguém tira.
Para finalizar
Quando o parto não acontece como planejado, a história não acabou diferente, ela apenas seguiu o caminho que precisou seguir.
O problema não está no parto. Está na cultura que insiste em deslegitimar a experiência feminina.
No Instituto Nascer, seguimos afirmando: o valor do parto está na vivência, no cuidado e no respeito — não na obediência a um roteiro idealizado.
“…Não é sobre chegar no topo do mundo, saber que venceu. É sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu…”
“…Quando retiramos uma parte da perfeição, o que resta é perfeito…”
Hemmerson Henrique Magioni, Médico Obstetra, Fundador e Diretor Técnico do Instituto Nascer, Comunidade Nascer e Nascer Academy – CRM-MG 3445.
Fontes científicas
- World Health Organization (WHO). Intrapartum care for a positive childbirth experience
- NICE. Intrapartum care for healthy women and babies
- ACOG. Operative vaginal birth; Safe prevention of the primary cesarean delivery
- RCOG. Assisted vaginal birth
- UpToDate®. Operative vaginal delivery; Cesarean delivery: intrapartum indications
- Cochrane Library. Continuous support for women during childbirth




